Esta série de crônicas sobre o Exército me leva a pessoas, situações e locais que se cruzam de forma inexplicável. Sincronicidade, talvez dissesse Jung. Mas como explicar, então, que minha admiração pelo U2 , a mais insuspeita banda gospel de todos os tempos, se misturasse com um dos locais mais marcantes de minha época no Exército? Era um domingo de tarde, eu e minhas filhas fomos ao Palácio da Alvorada,ver de longe o monumento que já guardei em noites épicas, com emas compondo a paisagem às margens do Lago Paranoá. Apito ao alcance para alertar as embarcações que não podiam chegar mais perto. Ali em que ocorreu um dos arriamentos de bandeira mais emocionantes que já fiz, um pequeno grupamento pouco antes das 18hs, quando sentimos e vivenciamos o civismo que marcava aquele ritual. Marchamos com cadência marcada e ordem unida impecável, marcial, e foi algo marcado por muita vibração, e tudo muito espontâneo. Neste Dia do Soldado de 2017 lembro claramente daquele dia, do toque de corneta e da cuidadosa dobra do pavilhão nacional. E ali também estava o Donizete, irmão Pelopeiro que partiu tão cedo. Momentos marcados a ferro na memória. E naquele tarde de domingo eu pensei nestas coisas e voltava para o carro quando aconteceu aquele fato inacreditável. Um carro preto, oficial, chapa verde e amarela, entrou no Palácio devagar, deu uma volta lá dentro e saiu devagar exatamente do nosso lado. Pelo vidro que se abriu um pouco percebemos que duas pessoas conhecidas estavam no banco traseiro: Gilberto Gil, Ministro da Cultura e nada menos do que Bono , vocalista do U2, então mais messiânico do que nunca. Minhas filhas começaram a gritar e a correr atrás do carro, que diminuiu a marcha, e de repente Bono abre totalmente o vidro e coloca o corpo para fora da janela, acenando para nós efusivamente, com seus óculos escuros e seu chapéu de cowboy. As fotos estavam arquivadas em um computador aqui em casa, pedi para Jessica e Sarah localizarem. Sim, Bono, nós brilharemos como estrelas na noite de verão. Suas dúvidas também são as minhas, como cristãos que procuram algo a mais no meio desta vida por vezes tão conturbada.
Temos a música e muito mais. A verdade? O que importa é o caminho. Iluminado.
VP. Silva.