Julho de 1977.
Recebi o telegrama, abri e lá estava escrito, qualificação/posse. Meu primeiro emprego, menor-aprendiz do Banco do Brasil, iria trabalhar no Edifício Sede I. Lá passei dois anos e dez meses, caleidoscópio de emoções e de descobertas. O prédio era imponente, verde, 20 andares, subsolos infinitos. Eu primeiro trabalhei no 15 andar, e recordo claramente cada uma daquelas figuras, colegas de trabalho, chefes, idiossincrasias, o ser humano em suas várias performances existenciais. Realmente um grande laboratório para a vida. Estava tudo lá, as possibilidades, os medos, os sucessos, os fracassos, a esperança o sonho. Grandes seres humanos, outros apenas esforçados, outros nem tanto. A necessária mescla que vai tornando nossa jornada um pouco mais previsível, evitando, pela repetição, que caíamos em amizades e relacionamentos que somente nos farão mal. Mas lá estava eu, com minha jaqueta jeans, ainda não estavam prontos os uniformes azuis. E na realidade eu era um office boy, e andava muito levando documentos para lá e para cá, pagando contas, comprando lanches. Outras atividades iam surgindo, mas aquelas andanças sempre estiveram presentes, e já naquela primeira semana eu tive uma surpresa: fui comprar um lanche na Galeria dos Estados, e o cheiro de pães de queijo, de vitaminas de frutas e café já surgia nas escadas, e tudo estava impecável, chão encerado, plantas, muitas lojas, muita gente ia e vinha. Depois de um ano e meio meu setor foi transferido para um edifício no Setor Comercial Sul, então as caminhadas para o Sede I e II faziam com que eu passasse pela Galeria várias vezes por dia. Conhecia cada loja daquelas, e tinha vida naquele caminho, e as pessoas pareciam mais felizes. Ou talvez eu já fosse feliz e visse tudo com aquele filtro. E para minha grande felicidade havia uma loja de discos bem na entrada da Galeria. Uma discoteca digna daquela verdadeira revolução musical que contemplávamos, a olho e ouvidos nus, naqueles mágicos dias no final dos anos 70. Abba não era cult, era totalmente mainstream, sonoro, vocalistas lindas e únicas, foi lá que comprei Voulez Vouz, Abba The Movie, SOS, e também muito Elton John, Johnnie Rivers, Led Zepelin, o convertido Bob Dylan em Slow Train Coming, Fagner em seu monumental Beleza, 14 Bis já dizendo a que vinha, e meus amigos, estas retinas e estes ouvidos captaram, em primeira mão, o nascimento da discoteca, os magnificios Embalos de Sábado à Noite, e as centenas de grandes discos que vieram na sequencia. Sim, minha imensa coleção de discos começou já naquela época, e meu salário era recebido com a magnífica perspectiva de passar lá naquela loja e transformar meu trabalho suado em notas musicais. Foram centenas de discos comprados, sempre a mesma emoção. E aquele caminho testemunhou munhas primeiras paixões, que estavam lá no Cruzeiro e também no Elefante Branco. E testemunhou um incipiente texto para uma linda menina loira que, décadas após, descobri que segue minha profissão. Não sei se a cartinha chegou a suas mãos, mas saiu de meu coração e daquela máquina Olivete portátil. Ambas são lembradas em tardes chuvosas, quando procuro no youtube aquelas músicas que tanto ainda remetem a elas. Em silêncio. Como eram as paixões no final dos anos 70. E tudo naquela Galeria remetia ao futuro, a grandes possibilidades. E ali perto havia o Cine Atlântida, onde vi Jessica Lange pela primeira vez, e a efervescência condizia com o vulcão que carregávamos no peito, ao som de John Travolta e Olivia Newton John. Estes dias percebi que fiz um verdadeiro mestrado de música pop naqueles anos, e também o doutorado, que foram 300 canções muito especiais, ouvidas, analisadas, sentidas e estudadas em três anos intensos, e que me levou a um novo patamar de interesse musical. Esta história merece um capítulo à parte. Fim de 2017. Volta para casa, depois de passar o Natal no Chile. Contraste. Brasília. Cidade não velha, mas mal cuidada. Fachadas de lojas com cartazes horríveis, mal escritos e mal localizados. Decadência em locais que, sim, têm muita história. 57 anos de história, e esta história é a história de todos nós que crescemos e que moramos em Brasília.
Histórias importantes, nossa identidade, são aqueles locais que mantém a chama de São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Paris, Roma, New York, a própria chama das vidas que passaram e passam por ali. Aquele prédio verde de tantas histórias está vazio e apagado, a Galeria esvaziada e mal cuidada, e agora é o chão que cede sob o peso das omissões e da falta de visão do que é uma cidade que precisa manter suas tradições e possibilidades.
Dia destes passava em frente daquele edifício, da velha Galeria, e me vi em um dos filmes da trilogia “De volta para o futuro”, com tudo desequilibrado, mal cuidado, perdido.
Mas cantarolei “You make me feel like dancing”, e pude até sentir o cheiro daqueles pães de queijo, daquelas vitaminas de frutas, daquele café, e no retrovisor vi um menino muito alto, de uniforme azul, com LP’s embaixo do braço, me acenando, como a dizer, vai ficar tudo bem.
VALDIR SILVA
Johnny Rivers – You’ve Lost That Lovin’ Feelin’
Leo Sayer – You Make Me Feel Like Dancing