Estávamos todos apreensivos, desconfiados, ambiente diferente. Seleção para o serviço militar. Soldados, sargentos e oficiais muito positivos, dando orientações em um tom de voz altivo.
Um soldado com um sobrenome diferente escrito na jaqueta, a gandola saberia depois, e era PELOPES. Eu não podia imaginar que brevemente seria daquela família.
Testes físicos e psicológicos, o sargento falou, QI alto, boa altura, vou te mandar para o BGP. O mítico BGP, o Batalhão do Imperador, criado por Dom Pedro I para garantir a independência. Eu vibrei e ao mesmo tempo imaginei como seria aquela fase, a a TV mostrava a cerimônia da rampa no Palácio do Planalto, e aquilo era impressionante. Apresentação no quartel, nova seleção, vai para a Companhia do Cerimonial. Os caras da TV, os próprios, que ainda não tinham dado baixa. E eram os Catarinas, o único lugar em que convivi com pessoas mais altas do que eu. E o Silva tinha como amigos os Vitorassi, Gebauer, Brummel, Anklan, Mezaroba, Verschor, Schilit, Kubinsk, Samartano, Ruppel, Ingenshaki, e inúmeros outros com nomes cheios de consoantes, e também o Tarcisio, Sidney, Franco, Barbosa e outros irmãos, não, não os esqueci.
E tivemos medo, choramos, era preciso fortalecer o corpo e o espírito naqueles 40 dias que não pudemos sair do quartel. E um dia trocamos aquelas bermudas improvisadas por fardas, e nossas camisetas já ostentavam nossos nomes, e soubemos o que era coturno, jugular, gandola, bibico. Formação de pelotões, e entrei para a família PELOPES, e a farda era diferente, era camuflada, 40 homens com missão especial, com um novo sobrenome escrito na gandola. Então era selva e cerimônias, vocês são da elite, e daqui a muitos anos vão se orgulhar de ter servido na Cerimonial, o Capitão Castro já nos falava. A melhor ordem unida do Exército Brasileiro, fora a AMAN, uma das melhores academias militares do mundo. Então era preciso manter as tradições centenárias, e pagamos o preço e honramos aquela farda camuflada e aqueles uniformes históricos. Semanas acampados e horas e horas e horas de ordem unida. E em um sábado de tarde usamos pela primeira vez a gala azul. Novos nomes foram conhecidos: barretina, cinto cruzado, polaina, pom pom. Emoção imensa. A farda desenhada por D. Pedro I. E já não éramos os mesmos, a vibração começava a ser nossa marca, a cadência começava a lembrar um trem chegando à estação, fazendo tremer as paredes do rancho quando íamos almoçar e que levantava todo mundo para nos ver chegar, no rancho, nos palácios, na base aérea nas saídas e chegadas do Presidente da República e presidentes estrangeiros. Mas a vibração maior, sempre, era quando a Bandeira Nacional era incorporada, e nossa guarda bandeira fazia suas evoluções e ficávamos em posição marcial nos orgulhando muito de nossa Nação, de nosso Exército, de nossa Cerimonial, de nossos amigos e irmãos que ali também estavam perfilados, e ainda estão em forma em nossos corações. A quarentena passou, já estávamos usando nossas fardas de passeio e fomos autorizados a ir em casa, alguns dias de folga.
O ano começava e novos homens e cidadãos começavam a se formar. Hoje penso neles e agradeço a Deus por ter tido a oportunidade de ter servido ao Exército Brasileiro no BGP, Cerimonial e PELOPES. O Capitão estava certo.
Valdir Silva