Acredite em mim, há esperanças. Mesmo que o ano de 2017 tenha sido difícil, com variados problemas de todos os tipos – o meu foi mais ou menos assim, verdadeiro carrossel de emoções, mas com muitas vitórias também – sempre haverá um espaço, uma atividade, uma memória, uma pessoa, que estará a seu lado pessoal ou virtualmente para mostrar caminhos mais ou menos claros. As pessoas são manancial infinito de emoções, de preferência boas, sou um otimista, mas tudo está tão corrido, os dias tão curtos, as atividades tão intensas, que o cliché de que não se tem tempo para um telefonema, um café, uma troca de impressões no meio do furacão, não é nada mais do que isto, um cliché. Devo dizer que algumas das conversas mais acalentadoras que tive em 2017 foram travadas no meio de agendas apertadas e encaixes salvadores. Mas o tema deste texto de hoje é outro. O tema é a esperança, e quando coloco aqueles tênis para mais uma corrida, vejo naquele asfalto um episódio da série que é a vida de todos nós, e com trilha sonora. Animado com a releitura do livro sobre corrida de Haruki Murakami (sim, ele é um corredor, maratonista dedicado e disciplinado, e sempre candidato ao Prêmio Nobel), do Sérgio Xavier Filho, grande cronista de nosso esporte, autor do excelente “Operação Portuga”, leia e compre logo seu tênis ali na esquina, editor consagrado, e do Jason Karp, autor americano que faz análises psicológicas e transcendentais do ato de colocar um pé na frente do outro. Essas leituras mais leves tem sido muito importantes neste fim de ano, além dos eternos Rubem Braga, Nelson Rodrigues, Fernando Sabino. Mas confesso que fui um maratonista relapso nesse ano, corri pouco, engordei, posso contar nos dedos das mãos os dias em que fui na academia. As flexões, pranchas e abdominais em casa mesmo foram minha salvação. E que exercício fenomenal e árduo é a prancha. Experimente. Mas ao sair trotando naquela subida inicial, a respiração ainda pesada, volto a meu habitatnatural, e reconheço cada uma daquelas curvas, a próxima sombra, o próximo bebedouro. Espaço que acalenta, que remete ao passado e fortalece para o futuro. Não, não era possível manter o ritmo atlético neste ano que termina, e vou explicar o porquê na retrospectiva que está saindo dessas impressoras virtuais. Mas o maratonista interior estava inconformado, ansioso, pensando nos irmãos que fecharam o circuito das majors nesta temporada. Cinquenta mil nômades literalmente correndo atrás, Da vida. Dos sonhos. De finais felizes. E ao cruzar a ponte já estou leve, feliz, voltei para casa. Laura Pausini nos fones, e como eu estava feliz naquele primeiro show dela que assistimos em São Paulo. Apaixonada, entregue totalmente em cada uma daquelas canções inesquecíveis. Ficamos na terceira fileira, quase ao lado do palco. Após mais de duas horas de verdadeira mágica, a saída me trouxe um sentimento inusitado: fiquei triste, como se estivesse ao lado de uma pessoa que não via há muitos e muitos anos, de quem gostava muito, e com a qual não pude trocar algumas palavras. Aí que comecei a perceber – e a sentir – o que viria a constatar muito claramente nos anos seguintes, a presença, o toque mágico, o despertar de emoções, não é algo necessariamente pessoal, de estar ao lado das pessoas que poderiam fazer a diferença, a emoção é algo basicamente espiritual, de energia. Distância e presença e confundem, Elvis vive? Sim, nas emoções que sua música nos provoca. A morte é um fenômeno objetivo e subjetivo apenas para quem morre, suas energias e influências permanecem, e não há nada de metafísico ou religioso ou neste insight. Então Laura é da família, é presença constante, é aquela pessoa que torna suas tardes vazias muito mais interessantes e salva o dia, obrigado Ira! E no quilômetro 8 lembrei, com um sorriso nos lábios, que cheguei a pensar em percorrer os hotéis de São Paulo em busca do refúgio da grande cantora italiana. Ao baixar o ritmo para completar meus modestos 10 km em 1h, com ela cantando um dueto com Renato Russo, prodígio da tecnologia, conclui temporariamente, como são as conclusões nesta fase da vida, que as grandes emoções, os grandes eventos, os momentos mágicos que conseguimos desfrutar a ferro e fogo no meio da rotina (que também é benéfica, voltarei ao tema) são acompanhados por uma ligeira sensação de melancolia, diria até mesmo de frustração disfarçada entre sorrisos e abraços fugidios, pois já sabemos que aqueles momentos, aquelas emoções, são passageiros, e que precisaremos ir atrás, com disciplina, com fé, em busca de alento para nossos corações calejados. Desculpem-me mas agora parece, mas não é, um cliché, é preciso manter a acuidade física e mental, filtrar as mágoas, esquecer a disputa por aquilo que é altamente ilusório, é preciso ajustar nossas cores, nosso áudio, equalizar as palavras ouvidas e as ditas que nos fazem tão mal, e viver o momento. De novo esta frase surrada? Mas é a verdade, pelo menos minha meia verdade, e que dor esta constatação me traz, que mania é esta de viver tudo tão intensamente em dias tão normais e cinzentos. Corpo já acalmado, relatório do Runtastic enviado, e esta noite véspera de Ano Novo Laura está no Youtube em um festival em Vina Del Mar, Chile que me traz doces lembranças, e faço novos planos, novos quilômetros, buscando o tangível para poucos, uma base espiritual sólida, lá e cá, de novo a Maratona. Outra major.Laura veio passar o ano, minhas fontes de alegria e força estão na cidade. Vivo o momento, dia 30 de dezembro quase chegando ao fim. Espero a felicidade, a ser construída e mantida pedra a pedra, tijolo a tijolo. Quilômetro a quilômetro. Oro. Sem cessar.
VALDIR SILVA