PLANTÃO E QUEEN

Meu primeiro plantão na Cerimonial foi no dia 21 de março de 1981, ou por aí. Estava aos poucos me tornando um soldado, estava ficando mais rústico, mais proativo. E mais operacional, afinal já integrava o mítico PELOPES.

Era um processo, e cada bronca, cada grito dos sargentos, veria depois, era peça essencial naquele desenvolvimento. Eu precisava mesmo daquela transformação, porque a rotina das guardas, dos acampamentos, da posterior vida civil, muitas vezes cruel, demandariam disciplina, sobriedade, força de espírito, e não somente naquela época, mas nas décadas seguintes, eu fui buscar força na lembrança daquelas fardas.

Mas o plantão era diferente, não usávamos fuzil ou capacete, nossa missão era manter a ordem e a limpeza na companhia. O chão ficava brilhando, encerado, inclusive o banheiro, algo impressionante para um local em que de fato moravam mais de 120 soldados. Nós colocávamos vassouras interditando metade do banheiro, então ficava mais fácil a faxina geral para entrega do serviço no dia seguinte. Convivência diferente no fim de semana, sem instrução, sem formaturas, éramos mesmo uma família, com os amigos engomando fardas – tarefa penosa no início, passamos infindáveis horas fazendo aquilo – lendo cartas das famílias distantes no Sul, em São Paulo, em Minas Gerais. Os goianos e nós, os cinco soldados de Brasília, geralmente íamos para casa nos fins de semana. Pérgola, alojamento, lavanderia, histórias que ficam na memória.

“Tenente, roubaram meu rabo quente “, frase dita com sotaque forte do Sul e que agora relembro nesta noite fria 36 anos após.

Conversas sobre namoradas que ficaram, de saudades da rotina naquela cidade distante, o emprego na fábrica. Reagan baleado, li na capa da Veja que comprava toda semana, dividindo a conta e a revista com o Amauri.

Rancho, pernoite, as luzes tinham que ser apagadas às 22hs.

Toque de silêncio.

Mas como silenciar, o Queen estava naquela televisão em nosso grêmio, presidido pelo Gebauer.

O primeiro show do Queen no Brasil, 100 mil pessoas no Pacaembu. Compramos um LP do Queen, e aquele LP rodou dezenas de vezes naquele salão, nossa sala, nosso grêmio, não só Queen, mas aquele plantão com Freddie Mercury ficou marcado porque ele dizia, sim nós somos os campeões.

Eu e meus amigos, jovens infantes com a vida toda pela frente

Acredito nisto até hoje. Dedicado ao eterno Pelopeiro Da Costa.

VALDIR SILVA

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