GRANADEIROS E DRAGÕES

A barretina era pesada, bem mais do que as atuais. Estávamos no pátio do BGP treinando para nossa primeira cerimônia da rampa no Palácio do Planalto, a Grande Passagem, quando os Dragões passariam para nós a responsabilidade pela guarda dos palácios e todo o cerimonial da Presidência da República, em regime de revezamento. Havia uma respeitosa rivalidade entre nós da Infantaria, o Batalhão da Guarda Presidencial, o Batalhão do Imperador, com eles, da Cavalaria, do Regimento de Cavalaria de Guardas, quartel que também ostenta grandes tradições. Mas o sol estava inclemente, ficávamos imóveis durante muito tempo, em posição de sentido, aguardando os comandos todos por corneta, o que exigia atenção total, muita concentração. Evoluções complexas. Os tenentes paravam em nossa frente e nos olhavam fixamente, atentos a qualquer movimento. Já havíamos passado pela quarentena, 40 exatos dias sem sair do quartel, aprendendo a ser soldados de Infantaria, mais especificamente Granadeiros da Companhia do Cerimonial, a tropa a ser passada em revista pelo Presidente da República toda semana, encarregada de também recepcionar os Chefes de Estado Estrangeiros,

A Companhia de Elite dentro do Batalhão de Elite. Disto o Capitão Castro nos lembrava todos os dias, “Vocês foram escolhidos a dedo”, cumpram seu papel. Então os toques de corneta já estavam integrados a nossa personalidade de Granadeiros, e todo cuidado era pouco para não “voarmos”, não errarmos naquela cerimônia que levava milhares de pessoas para a frente do Palácio todas as terças e quintas-feiras. “Um soldado da Cerimonial cai mas não se mexe”, e o capitão e os tenentes e sargentos lembravam o caso de um soldado do ano anterior que caiu, mas não se mexeu. Trinta minutos, 40 minutos, totalmente imóveis, apenas mexendo os dedos dos pés e das mãos dentro das luvas, de forma imperceptível, para fazer circular o sangue. Ordinário marche, toque de armar baioneta, que era um dos que eu mais temia, porque era preciso retirar a baioneta, levá-la à frente do corpo em movimento vigoroso, aguardar o comando da corneta para trazê-la de novo junto ao corpo, desta vez a encaixando no FO, o fuzil histórico Mauser, nosso companheiro de cerimônias, e ao perceber o clique do encaixe era um alívio. Alguns irmãos passavam mal no início, era preciso abaixar e fazer pressão na nuca, e então havia uma melhora. Toques de ombro arma, apresentar arma, olhar à esquerda ou à direita, acompanhar o Presidente com o olhar, olhar frente, ombro arma, virar à direita, ordinário marche, cadência típica da Cerimonial, levantando as pernas, nada de andar em forma, afinal de contas somos Infantes. Treinos e mais treinos, era assim que se fazia a melhor ordem unida do Exército Brasileiro. Chegou o grande dia, uniformes impecáveis, fivelas e sapatos brilhando, o ônibus já descia ao lado do Congresso Nacional, silêncio total, a praça dos Três Poderes estava cheia, a sensação era única, inédita. Como é que eu tinha chegado até ali? A vida nos reserva muitas boas surpresas. Chegamos ao lado do Palácio do Planalto, colocamos nossas barretinas, entramos em forma. Nossa Banda era uma de nossas grandes inspirações, e mais uma vez foi impecável ao executar o Hino da Incorporação da Bandeira. Nenhuma palavra foi dita, e nem precisava, éramos um corpo único, e depois de 45 minutos o Presidente finalmente apareceu no topo da rampa. O veríamos muitas e muitas vezes depois. Naquele dia não foi preciso o toque de tirar barretina, o que aconteceria outras vezes, lembro de uma vez em que ficamos imóveis por mais de uma hora e meia, e foi preciso aquele toque acalentador. Mas o Presidente foi descendo a rampa, olhar imponente, nós éramos muito altos, e formávamos quase que uma barreira em torno dele. Executamos impecavelmente nosso treinamento, nunca erramos, e ao voltar ao ônibus que nos levaria ao quartel percebi que havíamos transposto uma linha divisória muito importante em nossas vidas. Éramos Granadeiros, e iríamos aperfeiçoar aquelas cerimônias a um nível que nos dava real orgulho. E que nos enche de orgulho até hoje. Foi mais ou menos assim. Dizem que o passado precisa ser deixado para trás, mas eu acredito que cada etapa de nossas vidas é um tijolo desta construção atual, às vezes com os alicerces um pouco abalados pelas ventanias e terremotos da vida. E não tenho dúvidas de que as lembranças daquelas rampas, daqueles momentos épicos em que nos transformávamos em homens mais confiantes e realizadores, pode nos sustentar em nossos dilemas atuais. Fazer rampas novamente? Impossível, mas fecho os olhos e é como se estivesse lá ainda, porque minha vida me dá este tipo de lembrança, e vejo isto como uma dádiva, a dádiva das experiências vividas, experiências únicas. Acho que a vida realmente nos escolheu a dedo. E nos reuniu muitos anos depois. Sejamos felizes, que a força esteja conosco. É o que diz aquele toque de corneta. Valdir Silva

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