MARATONA DE CHICAGO II – QUILÔMETRO 34

 

O que se pensa quando se está no km 34 de uma maratona e seu corpo, sua mente e seu coração sabem que ainda faltam 8 km 195 m até aquela aparentemente impossível chegada? As magníficas ruas de Chicago, seus espetaculares edifícios, terra da arquitetura, seu caloroso povo, e aquelas centenas e centenas de voluntários com seus uniformes azuis, isto tudo era como um filme, parecia uma paisagem vista da janela de um carro; mais gatorade, mais água, mais gel. Alimento para o corpo, e cada passada já doía, na próxima vez mais musculação depois das 22hs, mais abdominais, mais das eficientes flexões. É preciso estar muito forte, lembre-se, mais uma vez. Como em Berlim. É preciso controlar o pace para não ter um estiramento, o problema não é fôlego, é uma questão química e muscular. De novo o mantra “não pode parar”, o olhar está lá no final daquela reta infinita, lá tem um telão, não era lá, vire a direita, cadarço soltou, não abaixe, impossível levantar depois, experiência, encoste no poste, laço feito, almost there? E meus irmãos americanos, japoneses, franceses, africanos, suecos, argentinos, mexicanos, será que Maria conseguiu o índice para Boston, todos lá, infinitas histórias, infinitas superações up hill. Plana? SQN, no nível do asfalto esqueça os mitos e facilidades. É você, o asfalto e sua essência. De que mesmo você é feito? E a Sarah, e a Jessica, e a Ana, e a tia Rosária, em minha mente nos últimos 6 meses. 1600 músicas tem meu inseparável companheiro de corridas. Estava ouvindo as ultimas daquelas dezenas e dezenas naquela manhã não tão fria naquela cidade dos ventos. E do vidro. E quase tive uma lesão na penúltima subida. Lágrimas, dores, desafios sendo vencidos, Aline Barros de novo tocando, sim, espero em ti, Tom Petty aprendendo a voar. Tirei o aparelho do bolso ao subir aquela rua íngreme, procurei a letra “e” antes de novamente virar a direita, e coloquei Eric Clapton tocando e sentindo “Layla “. De novo? No final da maratona de Nova York, o rádio tocava “White Room “, e foi uma coincidência. Agora não, era preciso garra, fúria, calma, amor, esperança. Aumentei o volume, e vi finish line ao longe, e a platéia nas arquibancadas gritava, e se adensava, e ouvi meu nome no alto falante, Eric de novo purgando seus fantasmas, seus amores impossíveis, e a família, bem a família, fonte de emoções contraditórias. Os olhos do pai. É isto mesmo, nossa vida é um blues e também um rock. Layla termina, medalha muito bonita, Picasso? Sim! E acreditem, em Chicago tinha uma cerveja gelada para nós, e os músculos já frios também. Difícil andar até o hotel. Saúde, Eric. Estamos vivos, e a música continua nos alimentando. Londres 2018? Agora será um blues… VALDIR SILVA

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