OS MARATONISTAS, AQUELES QUE CORREM A DISTÂNCIA REAL, DE 42KM 195m , e que completam o percurso, são vencedores. Todos. A maratona não é um esporte, é uma filosofia de vida, e o único competidor que você tem lá naquelas ruas – geladas, quentes ou com muito vento – é você mesmo. Você venceu o medo, algumas histórias difíceis , doenças, traumas, e deu um novo rumo a sua vida, em uma distância épica que exige até a última molécula de garra e de persistência. E uma vontade de aço. Os aparentemente imbatíveis quenianos, Alberto Salazar, Rob De Castela, Carlos Lopes, Lasse Viren, Bil Rodgers, Marilson, bicampeão da Maratona de Nova York – e eu sei como este feito é absolutamente inacreditável naquele percurso tão difícil quanto glamouroso, lá onde ultrapassei o portal para uma outra dimensão em minha modesta carreira de maratonista – esses heróis da maratona, disputam outra coisa, a glória, o dinheiro, talvez o time olímpico, o patrocínio, e claro que nos incentivam ao largar lado a lado conosco naquelas competições ao redor do mundo. Mas eles estão milhas e milhas lá na frente, estão em uma competição, e nossa batalha íntima está se desenrolando solitária no meio de 40 mil outros corredores, batalha dramática, às vezes cruel, dolorosa e, ao mesmo tempo, tão idílica, emocionante, uma fraternidade que pensávamos não existir mais, e o que vemos na realidade são almas, nossas e dos milhões de espectadores que acompanham aquele espetáculo, aqueles anônimos corredores de todo o mundo, e perguntam, o que nos move. O que nos move, senhoras e senhores, é a vida, o espírito, nosso e dos que nos apoiam, nas ruas ou em casa. E tenham certeza de que aquela medalha, que recebemos ao cruzar aquela por vezes impossível linha de chegada, tem tanto peso quanto um ouro olímpico. E lá em Chicago, naquela rua da Magnificent Mile, na segunda feira, após ter terminado mais uma maratona, corpo dolorido e muito orgulhoso, com dezenas de meus irmão maratonistas circulando com suas medalhas no pescoço, recebendo cumprimentos da população da cidade, que se esqueceu dos negócios por um dia e celebrou aquela festa que suspende tudo por uma semana, entrei naquela loja da patrocinadora do evento. Todos com suas medalhas, esperando que fossem gravadas. Esta é dedicada a Ana, Jessica, Sarah e ela. Tia Rosaria. Sem ela eu não teria corrido Chicago, Berlin ou New York. Sempre digo que todos devem correr uma maratona, pelo menos uma vez na vida. E ter a benção de ter uma tia a quem dedicar sua tão suada, sofrida, desejada medalha. Sim, eu chorei naquela tarde longínqua quando ela disse que estava partindo. Mais uma vez, em busca de um sonho, uma utopia e da sobrevivência, e naquele dia eu prometi que ainda conseguiria dar a ela um pouco de conforto, de reconhecimento, de amor, tão fragmentado e tão descaracterizado por tantos interesses mesquinhos. E agradeço a Deus por ter conseguido. Medalha gravada, missão cumprida, saímos para a rua, agora também com a medalha no pescoço, e me veio à cabeça imediatamente a canção “Rock and roll lullaby”, do B.J. Thomas. Não, não sei se era a preferida dela. Mas marcou a trilha sonora de nossa vida, com ela, naquela casinha humilde com uma horta na frente, início de Brasília, 1972, quando eu sonhava e tinha muitas esperanças. Talvez com Chicago 2016. Descanse em paz, Tia Rosaria. Espero que encontre minha vó, e juntas possam ouvir “Branco mais que a Neve”, que ouvi hoje na versão do Fernandinho, como naquela igrejinha humilde de 40 anos atrás. Graças a Deus. VALDIR SILVA