FIXX, CORRIDA ETERNA

Tenho muitos tênis de corrida, muitos deles recauchutados.Sim, porque a média de um tênis desses modernos é de aproximadamente 3 meses, e isto para um modesto maratonista como eu. Então os calçados ficam novos por cima e o solado todo gasto, é preciso bom senso aqui.Mandei arrumar 8 pares, e ontem estava correndo com um deles, ficou mais pesado, pneu no solado, e que ótima sensação de firmeza, de contato com o solo. Início de tarde, sol frio, vento na contramão, BTO alto no fone de ouvido, viva as férias. A batida no solo e na bateria me remeteram aqueles dias iniciais, quando eu comecei a correr com apenas um tênis sem tecnologia, sem solado anatômico, sem promessas de desempenho. Na verdade eu tinha acabado de dar baixa do Exército, estava estudando muito, aguardando minha chamada para o concurso público em que havia obtido aprovação, naquele mesmo ano de 1982, e que mudaria minha vida até os dias de hoje, e estava envolvido com as atividades do Collector’s Club, que criei e administrei e que se dedicava à venda, compra de discos, livros e revistas, na verdade um sebo que montei no quarto de empregada lá casa e que me deu incríveis experiências naquele ano. Li muito e tive acesso a muito material, que passei para a frente quando montei outro sebo, desta feita em outro local, mas esta é outra história. O fato é que certa tarde de chuva caiu-me às mãos o mítico “Guia completo de corrida”, de James Fixx, um dos responsáveis pelo boom da corrida nos anos 80, e que mudou a vida de milhões e milhões de pessoas. Fixx, tal qual um apóstolo, transmitia aquela imagem de quem descobrira uma fonte de vida que a maioria das pessoas sequer imaginava existir. Fixx seguiu se destino, era humano, pioneiro, pagou seu preço, e Cooper literalmente correu para explicar aquilo tudo e compreendemos, todos compreenderam.Obrigado, James Fixx, nós maratonistas de 2017 devemos muito a seu pioneirismo. E nos finais de tarde e início da noite eu saía, inicialmente tímido, pelas ruas do Cruzeiro, e aos poucos comecei a sentir no corpo e na alma tudo aquilo que tinha lido em Fixx. Logo surgiu “Viva, a revista da corrida” , e lá encontrei Salazar, Rob de Castela, Dick Beardsley, Carlos Gomes, batalhas nas ruas que iria conhecer décadas após. Comecei a me sentir invulnerável, veloz, forte, os pesos ajudaram, e pensava na CERIMONIAL e no PELOPES, nos amigos que não sabia se voltaria a encontrar algum dia. E as noites avançavam, o suor escorria,
os pés batiam nos locais que abrigariam bairros sequer planejados, como o Sudoeste, onde moro hoje. Como seria bom correr de novo em forma camuflado com o PELOPES ou a Companhia do CERIMONIAL toda. As viaturas que passavam por mim no EIxo Monumental não transportavam mais meus irmãos de farda, cada um iria seguir seu próprio caminho. Advogados, empresários que pescam e pilotam motos nos finais de semana, donos de torrefação de café, ruralistas, radialistas, delegados, policiais, servidores públicos. Eu não sabia como seria meu futuro, eu estudava pensava muito, orava e não ouvia música correndo porque não existiam, claro, iPods ou qualquer coisa parecida, mas as músicas estavam na minha cabeça e The Police estourava com Every Breath You Take, Michael Jackson com seu Thriller, que ouvi dezenas e dezenas de vezes, eu, o Brasil e o mundo. A década de 80 começava e prometia muito. Os sonhos continuavam e continuam até hoje, quando ouço The Bends, do Radiohead e traduzo cada nota daquele momento épico da música, não pop, não rock, apenas música visceral que te faz estremecer. Não sei se esta energia vital, estes sonhos que me mantém de pé com tanta força, este lirismo meio fora de moda e esta esperança que insiste em não me abandonar estariam aqui se eu não fosse maratonista. Provavelmente estariam, mas com muito menos intensidade.Fixx, irmão corredor, é isto o que penso de seu livro, de sua contribuição. Nada de acessórios, nada de tênis tecnológicos, nada de GPS. De vez em quando deixo tudo isto em casa e sigo sua receita. Apenas um tênis simples, a estrada e a alma. VALDIR SILVA.

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