Na vida fazemos coisas incríveis, às vezes de forma involuntária, outras vezes por necessidade ou obrigação, mas são, de todo modo, coisas incríveis para a maioria das pessoas. Sim, estou falando para pessoas comuns, aquelas que estudam, trabalham, têm sonhos, que envelhecem a velocidades variadas, que veem o tempo passar e se preocupam. Como estará a vida, estou sonhando ou ainda tenho sonhos. Mas não é preciso muito, apenas um pouco de coragem. E aí vejo, em uma madrugada de exploração, um programa com um rapaz praticando rapel. E me lembro. As alturas precisam ser vencidas pelos militares de operações especiais, o medo inicial precisa ser dominado, porque ela, a altura, será sua companhia inseparável na cidade ou na selva. E lá estávamos nós no bandeirão, na pista de pentatlo do BGP. Uniforme de campanha camuflado, de ralo. Tínhamos que subir uma escada de cordas, em uma estrutura bem alta, mais ou menos a altura de 2 andares de um edifício, e lá em cima fazer um salto, como se pulássemos um muro, mas estávamos pulando a viga, e aterrisaríamos em montes de areia lá em baixo. É preciso ter sangue frio, porque a escada balançava muito e o esforço também era grande, e tudo isso ficando cada vez mais alto. E a aterrisagem precisa ser igual a dos paraquedistas, dobrando os joelhos, e com muito cuidado para não morder a língua no impacto. Certa vez mordi os lábios, que foram abertos, e tive que levar vários pontos, mas a cicatrização é completa. A técnica do rapel era muito específica, e a primeira descida da construção na pista, um edifício inacabado, exigiu muita atenção e coordenação. Segura com a mão esquerda e libera com a mão direita, dando pequenos saltos na parede. Sem olhar para baixo além do estritamente necessário. Este conselho serve para qualquer exercício com cordas nas alturas. Campo de instrução de Formosa. A falsa baiana, mãos trocadas. Em outro exercício, descida de morros em um aparato que deslizava em um fio de aço, nós de pé, segurando apenas com as mãos um apoio em uma roldana, praticamente voávamos morro abaixo, e a velocidade ia aumentando cada vez mais, os irmãos pelopeiros tinham que fazer uma espécie de freio, atravessando uma corda no fim do percurso, muitos metros lá embaixo. Mas, para mim, o que mais exigia superação, força, foco, confiança, era o comando crawl. Do inglês rastejar. Pense em uma corda esticada entre dois prédios. Ou entre duas árvores de lados opostos a um rio. Ou entre dois pontos sobre um vazio qualquer. E agora pense que você vai ter que atravessar aquela corda, rastejando sobre ela, impulsionando seu corpo com a força de seus braços. E que está com uma mochila lotada de equipamentos, capacete de aço, fuzil, com seu uniforme de campanha completo, de coturno. E que aquela corda, por mais esticada que seja, vai formar uma barrriga lá do outro lado, e você terá que rastejar para cima, com aquela corda balançado ao sabor do vento. O comando crawl era um verdadeiro terror no início, mas sabíamos que nossa vida, e de nossos companheiros, poderia depender de nossa capacidade de fazer aquilo bem feito. Em um dos treinos iniciais eu caí de uma altura razoável, e de mau jeito, e a fratura somente foi descoberta quando tirei o coturno vários dias depois, já em Brasília – no campo, não se tira o coturno, e jamais se larga o fuzil, regra número um. Um mês engessado, meu dedo até hoje mostra os efeitos daquela fratura. Mas voltei à ativa, fui treinando mais, alturas mais baixas, adaptação. E fiquei muito mais forte também, tivemos uma folga de uma semana mais ou menos, antes do exercício conjunto das Operações Especiais do Comando Militar do Planalto – nos qual fomos campeões de eficiência, vou falar disso em outro texto – , e naqueles dias eu me exercitei muito, centenas e centenas de flexões e de abdominais, fiquei muito forte, eu sabia o que seriam aquelas manobras, já era um soldado de operações especiais com uma formação sólida, graças aos empenho dos Sargentos Marcon, Irapuã, Castro, Daltro, Fortunato e os tenentes Linhares e Gutemberg, todos guerreitos de fibra, e a quem presto minhas homenagens com respeito e gratidão. E já estávamos há muitos dias na mata, cansados, sendo testados de diversas formas, e naquela manhã era a avaliação do comando crawl. Examinadores com suas pranchetas, e um a um fomos subindo naquela árvore, olhando a outra margem daquele rio, e ventava, e a corda queimava minha barriga, mesmo com a gandola, e os músculos dos braços ardiam pelo esforço, a movimentação toda dependia daqueles braços, perna direita totalmente estendida na corda, pés para baixo, a perna esquerda solta, fazendo o contrapeso, corda balançando. Descanso nas alturas, respire fundo, não olhe para baixo. Equipamento e fuzil ajustados. Capacete de aço, pesado. E naqueles metros finais, rastejando para cima, naquela corda, eu vencia meus medos, minhas fraquezas, meus traumas, minhas histórias difíceis. E a madrugada já vai alta em março de 2018, e reconheço que a vida me trouxe muitos comandos crawl, mas aqueles dias extremamente difíceis daquele exercício SUOPES me deixaram aquela semente, aquela esperança e aquela certeza, de que cada centímetro, cada obstáculo poderiam e podem ser vencidos, seja nas cordas nas alturas, nas estradas das maratonas mundo afora, seja nos dias de luta que constituem a vida de todos nós. Badlands, ouvida centenas de vezes há mais de trinta anos. É isto aí, meu amigo Bruce. Continuo acreditando na superação. Como você diz nesta canção, também acredito no amor. Eu acredito na fé que pode me salvar. Eu acredito e tenho esperança. VALDIR SILVA