SOBRE AURILENE E ELCIEL

Em  24 de fevereiro de 2017, dois caras me chamaram a atenção e me fizeram repensar o que é ser um rapaz latino-americano de 50 e poucos anos de idade em um país injusto e rocambolesco como o Brasil. Brandon Stanton, entrevistador de anônimos que estava no jornal. E Belchior. Não um cara, mas “o cara ” da música brasileira, popular, como um adjetivo muito próprio. Lirismo e dor, verdadeira e eventualmente comercial, sim, a verdade em terceiro grau, exposta em vinis e CDS absolutamente clássicos. E naquele dia  me deparei com “Alucinação “, do grande bardo, não interessado em nenhuma teoria, em nenhuma fantasia, nem algo mais. Sua alucinação é suportar o dia a dia, o delírio com experiências em coisas reais. Aspas. E aí o vídeo era  ambientado em um lixão. Urubus, gente explorada, miséria. Crianças dividindo o lixo. Talvez na capital do Brasil. Nas capitais. Cena que me é familiar, vamos resolver, por favor? O vídeo não está aqui, é fácil encontrar no  YouTube. E Brandon Stanton entrevistaria em profundidade aquela senhora catadora que aparece no vídeo, que talvez falasse da catadora que morreu esmagada embaixo de um caminhão que tombou, da violência, das crianças que têm a infância perdida naquele ambiente. E também de Aurilene, atropelada não somente pelo trator, mas pela omissão e a hipocrisia. Disto ela já começou a falar. E também Elciel, que teve o mesmo destino, no final de 2017. Belchior, com seus erros e acertos, estava sumido  por uns tempos. Aguardávamos sua volta. Voltarei a ele muitas vezes, mas ele não voltará. O tempo passou  e hoje, um ano depois, 10 de março de 2018, dedico esta canção a Aurilene e Elciel,  com esperança de que este povo tenha respeitada sua dignidade. Seus humanos direitos. Sem teorias. Sem alucinação. VALDIR SILVA

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