O FAL era nosso grande companheiro, o famoso fuzil automático leve. Mas ele ia ficando cada vez mais pesado quando éramos sentinelas, e a munição era real, calibre 7,62. Não era ordem unida, não era festim. Baioneta calada, carregador acoplado, fuzil destravado. A vida do Presidente da República e a de nossos amigos no alojamento dependiam de nós. E aqueles 5 kg começavam a doer nos ombros, a bandoleira se rendia à lei de gravidade. Senha na ponta da língua. Vou contar 5 passos para lá e 5 para cá. Como é preciso valorizar a chance de deitar em uma cama, de dormir 6 horas direto. Não podia. 4 horas de descanso e 2 no posto. Eternidade. Solidão. Atenção. Já tenho um passado, um futuro em construção. E a vida civil, como será? Terminar os estudos, arranjar emprego, constituir família. De novo esses pensamentos. Pensar o que nesta noite gelada, pés endurecendo e também dedos das mãos. Junho. Ainda bem que não chove nesta época. Como vim parar aqui, que honra e responsabilidade, o Presidente dormindo ali naquela casa. No bolso da gandola, o Novo Testamento. Sempre. E as histórias das vacas abatidas a tiros por sentinelas? De noite, na escuridão, a percepção é diferente. Já vi estrelas cadentes em um céu em cinemascope. Só como sentinela e acampando em Formosa é possível ver isso. Nunca mais vi. E o choque finalmente chegou, outro sentinela chega, descansado. Golpes de segurança, mais um, arma apontada para cima. Segurança sempre. Nossos irmãos dormindo, mais algumas horas e será dia. Quartel, liberação, casa, dormir um pouco. Na TV Joe Egan canta “Back on the Road “. De volta. A vida seguirá seu curso, não sabíamos para onde iríamos, ainda não sabemos 36 anos após. Eu tenho apenas uma noção, tenho alguns lastros, alguns apoios, muitas dúvidas. O medo comecei a vencer naquelas noites sem fim, com o fuzil nas costas e muitos sonhos no coração. VALDIR SILVA
SENTINELA
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