GOSTARIA QUE FICASSEM

Costumo escrever uma carta para minhas filhas, nos dias de seus aniversários. Comecei, claro, com a mais velha, e nelas relatei a emoção do dia do parto, quando almoçamos na casa de minha saudosa tia Rosária, e de lá saímos diretamente para o Hospital, antes passando por nossa casa, para pegar as coisas. Ficamos lá a tarde inteira, era um sábado, e de manhã fui para a faculdade, e no carro tocava Legião Urbana cantando “Quando o sol bater na janela de seu quarto”. Jessica nasceu às 19hs30min, logo depois de um jogo de futebol em que o time favorito do médico jogava, e ele acompanhou o jogo no quarto, e de lá saímos para a sala de cirurgia, eu correndo para colocar aquela roupa verde, acompanhei o parto e a peguei nas mãos após ouvir seu choro pela primeira vez, e ouvi aquele choro muitas vezes em diversas fases de nossas vidas. Seus primeiros passos foram naquela pequena sala, enquanto eu estudava Direito Civil na mesa, um domingo, e filmamos cada um daqueles passinhos. Asa Norte, Popeye, aquelas tardes de apresentações de peças infantis. Nova fase de minha vida, trabalhei um tempo fora, e quando eu chegava carregado de processos em meu Monza, pronto para encarar 3 andares pela escada, era ela que surgia correndo embaixo do bloco, e me abraçava e me beijava, e fazia tudo ficar com um ar de sonho, de coisas inesquecíveis e eternas. Sarah nasceu em uma quinta-feira, também 19hs e pouco. Também acompanhei o parto, e aquele dia foi a prova de que milagres acontecem sempre em nossas vidas, é preciso estar atento. Outro dia vi de novo as fotos do primeiro banho, do primeiro dia de aula no Santo Antônio. Meus leitores, tenham paciência com aqueles pais que vivem fotografando seus filhos em festas, formaturas e similares, esse material vai ser muito importante em noites frias e chuvosas anos após, e farão muita diferença. Acreditem em mim. E lembrei-me de tanta coisa marcante, daquele ano difícil que passamos, do que ouvi em uma sexta-feira de oração, “Fique tranquilo, ela vai crescer forte e sadia, tenha mais fé”. E lá estávamos esquiando no Chile, eu quase cai do teleférico, o esqui enroscou, e Sarah chorava e ria ao mesmo tempo. Certo dia, eu aos 47 anos de idade, descemos daquele barco e chegamos em Disneyworld, passamos pela entrada e vi aquele banco com a estátua do Mickey, aquele passeio foi meu maior sonho de criança pobre, e lá estávamos, fiz uma força imensa para segurar as lágrimas. “Você veio! Finalmente!”, imaginei aqueles personagens todos dizendo esta frase, personagens que povoaram minha alma, me sustentaram e deram cor aos meus dias, em muitos momentos de minha vida de criança em São Paulo e Brasília. Fui com elas, meus tesouros. E lá também ouvimos Elvis cantando “Suspicious Minds”, eu dirigindo uma Tahoe branca imensa. Temos nossas “quintas familiares”, nossos jantares e encontros das quintas-feiras, não faltamos em quase nenhuma quinta, nos últimos 10 anos. E não faltaremos pelas próximas décadas, Deus nos permita, e oro por isso. Falo de passeios que serão inesquecíveis, New York, Florença, Estocolmo, é lá que está o museu do Abba. Novo desafio, mudei os planos, não é mais Berlin 2018, agora é a Maratona de Tokyo, março de 2019, pretendo voltar para minha melhor forma para aquela prova, uma das majors. Vejam suas agendas, ouçam essas e aquelas músicas. Para elas deve ser interessante ter um pai com tantas referências fora do padrão, muito embora eu aparentemente seja um cara muito padrão, com meus ternos escuros, mas também com meus calções de corrida e óculos espaciais. Tatuagem de veterano do PELOPES é uma ótima ideia, por enquanto não, vamos ver. As aparências enganam, e elas sabem disto, e riem quando falo de minha admiração por música pop, jazz, blues, country, rock e super-heróis, mas também os clássicos da literatura e do cinema, filosofia, política, teologia, etc., me interesso por muitas e muitas coisas, pela vida, (a vida pode ser bela, o copo está meio cheio ou meio vazio, é você que decide), aprofundando algumas coisas por necessidade existencial, Deus me presenteou com o dom da curiosidade, e tento sempre passar isso para elas. Ampliem seus horizontes que a vida fica mais fácil. Muito mais. E fico muito feliz por vê-las equilibrando tudo isto com muita responsabilidade, educação, pés no chão. Este ano foram muito vencedoras em seus projetos profissionais e de estudos, uma passou em um concurso difícil – mais uma vez – e a outra em um concorrido vestibular, objetivo que buscava desde que entrou no segundo grau. Minhas meninas são exemplos de foco e de disciplina. Pai coruja? Sim, se puder dar um conselho, sejam também pais corujas, a vida passa rápido, e não custa nada sermos pessoas legais, decentes, boas, ou que pelos menos tentemos isso, com nossas limitações. Hoje minha filha mais nova, Sarah, saiu dirigindo pelas ruas de Brasília. Eu ao lado, dê a seta, olhe pelos retrovisores, freie, acelere, sinal amarelo é para ir parando, não para acelerar, não titubeie, vá reduzindo. Cuidado com a calçada, com as motos, veja o limite de velocidade. Então vejo aqui neste computador as cartas escritas para minhas filhas quando fizeram 18, 19, 20, 21 anos de idade. Vejo o vídeo da música “I wish you’d stay”, do Brad Paisley, eu também queria que elas ficassem, sempre a meu lado. E agora, nesta fase da vida, na medida do possível, na medida em que a vida vai nos levando, deixando muita margem para que possamos, sim, vivenciar mais, rir mais, nos abraçarmos mais. Não acreditem nos clichês das vidas insípidas e superficiais, perdidas em telinhas de celulares que nos roubam preciosos momentos e a presença de pessoas que fazem muita diferença. Eu desejo a vocês o melhor, e que sempre encontrem amor ao longo do caminho. VALDIR SILVA

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