A ESTRADA NÃO SE IMPORTA

 

As pessoas que convivem comigo já sabem, os planos foram mudados: não correrei a Maratona de Berlin este ano, novamente. Corri Berlin em 2010, e farei alguns textos sobre aquela incrível prova. Mas a meta é correr as 6 Majors – o grande circuito das maiores Maratonas do Mundo, as mais emblemáticas e organizadas, eventos únicos. Já corri – e, claro, completei – as Maratonas de New York, Berlin e Chicago. Faltam, então, as Maratonas de Londres, Tokyo e Boston. Boston é a mais antiga, a mais tradicional, e somente aceita os melhores corredores amadores, é exigido índice para se inscrever. Na minha idade, terei que apresentar a credencial de 3:35 para ser aceito. Vou pensar em Boston com carinho, minha maior façanha no mundo das Maratonas (sempre com “M” maiúsculo, é preciso respeitar aquela distância mítica, os 42km195m, quem já terminou uma Maratona sabe do que estou falando) será completar o percurso em menos de 4 horas. Voando no asfalto, em qualquer idade. Então Boston é algo ainda indefinido, mas não descartado. Assisti outro dia um excelente vídeo no Canal Fôlego, do Youtube, sobre a mitológica Ultramaratona Comrades, na África do Sul. Meus amigos, são 89 km em homenagem aos combatentes da Primeira Guerra Mundial, que fizeram aquele percurso para salvarem as próprias vidas. A Comrades ainda não está em meus planos, mas vejam o vídeo, vão gostar. A vida é feita de desafios. Mas volto ao início deste texto: ao invés de correr Berlin de novo, resolvi correr a Maratona de Tokyo no início de 2019. Peraí, qual é mesmo minha idade? 55, estarei com 56. Apenas um número, que o diga o Dráuzio Varela, maratonista amador aos 74 anos de idade. Começou a correr aos 50, todos já devem ter lido a história dele na internet, ou no seu livro de corridas. Mas não se iludam, queridos leitores. Quando começarem a correr não faltarão os pessimistas, que dirão que já estão velhos, que não conseguirão. Os eternos pessimistas, tão presentes na vida de milhões de corredores. Quando comecei a correr, e resolvi correr minha primeira meia maratona (hoje em dia somente corro Maratonas, não gosto das meias, e também não gosto das maratonas de revezamento, depois explicarei meus motivos), um vizinho, não diria amigo, apesar de estar sempre circulando por ali, disse: “Não vai conseguir, grandão, desista”. Voltei com a camiseta do evento, completei bem a prova, e ele ficou com aquela expressão de contrariedade. Os anos se passaram, eu com 43 anos de idade resolvi correr a Maratona de New York. Via a decepção no rosto de muita gente, como eu ousaria fazer aquilo? E vieram as piadinhas, as referências à barriguinha – que secou depois de alguns meses de treino focado – , e um deles disse, você já está velho, eu disse, já corri a primeira maratona de Brasília, e ele disse, mas você era novo, agora é velho, não vai conseguir. Fui, vivenciei uma das maiores experiências de minha vida, era como um sonho em 4k, escreverei sobre aquela corrida épica, quando conversei com Dean Karnazes sem saber que era ele, e aprendi uma ou duas coisas sobre a natureza humana, coisas altamente positivas. Mas encaixei essas histórias aqui para alertar a vocês, meus amigos quarentões, cinquentões,  que é possível começar agora e dar um novo rumo as suas vidas, nas pistas da vida e naquele longo percurso dentro de vocês, sabendo que os haters da vida real estarão à espreita, com piadinhas e desânimo, e que haverá também a indiferença, tão doída. Os projetos serão seus, nossos, mas saibam que, também, sempre existirão as pessoas que realmente farão a diferença nessa jornada, que se importarão e que estarão  junto a vocês, e são essas que valem a pena. São pessoas que falam a nossa língua, não o esperanto, mas deixam acesa a esperança. Desenvolvam a capacidade de encarar a vida de forma seletiva, peneirando o que não vale a pena. Bom. Ontem comecei o projeto específico Tokyo 2019, e como foi difícil. Pesado, sem ritmo, músculos precisando de adaptação. 1h 4m. Sob o sol. Óculos, boné, tênis apropriados. Pace modesto. Sendo ultrapassado facilmente. Mas que ótima sensação de reinício, de recomeço. O maratonista acordando, mais uma vez. Os últimos 4 meses foram absurdamente difíceis. Dolorosos. Luta silenciosa, autêntico deserto. Mas no deserto também surgem oásis vez ou outra, e os meus também surgiram. Quatro grandes bençãos e uma surpresa. Que me faz meditar dia e noite, mas que me indica um caminho que jamais poderia  imaginar anos atrás. Presença de Deus. Aquela fase passou, está passando, então é preciso se fortalecer, focar, orar, acalmar a mente e o coração. Um passo atrás do outro. Respirar fundo. O sol nascente. VALDIR SILVA

Deixe um comentário