A cena é antológica mas, para não dar um spoiler, que tanto detesto, não vou dizer de qual filme faz parte e qual o contexto. Mas antes de morrer o personagem fazia uma autocrítica pessoal e histórica, e dizia que a igualdade entre os homens era uma utopia. Porque alguns eram abençoados com riquezas, mas não tinham o amor. Teriam a compreensão, a inteligência, a fé, distribuídos de forma aleatória, e não poderiam fazer nada a respeito. A abundância material relativizada. Claro que esta matéria é altamente polêmica, mas serve para desmistificar alguns chavões sociológicos, alguns modelos que deixam a gente dentro de pequenos – ou grandes – guetos existenciais, e nos impedem de ter, a final, uma visão maior das coisas, como o personagem de que falei. Tive a felicidade de ter uma infância difícil (sim, poderia ter sido mais fácil, um pouquinho só, mas valeu a experiência), então tenho uma visão perspectiva do quanto é importante se livrar de amarras, de dogmas, de uma visão de casta. Hoje sou integrante da chamada classe média alta e, sinceramente, sempre pensei que isto seria a ordem natural das coisas. Tive uma liberdade existencial, intelectual, de formação, que me foram absolutamente essenciais para compreender o mundo um pouco melhor, o que me é importante inclusive hoje em dia. Era fluente em inglês aos 14 anos de idade, lendo, falando e escrevendo , traduzindo do inglês e vertendo para o português. Sabia – e sei ainda, melhorando ou piorando a depender das revisões que sempre tento fazer – praticamente todos os verbos ingleses. Uma vez um amigo duvidou e pegou a tabela de verbos, e viu que eu não blefava. Meia hora perguntando os verbos, e eu dizendo. Por correspondência, média final 10. Pegava livros na biblioteca do Colégio do Setor Leste, onde minha mãe era servente, e gostava muito de estudar por conta própria, de Geografia a Astronomia, de História a Ciências. Leitor voraz, desde criança. Mas isto não me impediu de simplesmente largar o Segundo Grau no último ano, eu precisava estudar e achava que poderia fazê-lo melhor por conta própria. Quando vejo alunos brilhantes estudando anos a fio matérias que não estão usando mais na Universidade, vejo que estava certo. Que sistema educacional horroroso este nosso aqui no Brasil. Aí veio o Serviço Militar, de que tanto falo, com orgulho, em minhas crônicas, e era e deveria ser o normal para jovens na minha idade. Em minha Companhia tinha filhos de gente abastada, de donos de fazendas, de fábricas, filho de General, pessoas que estavam ali porque , além de ser uma honra servir a pátria e ter experiências de vida únicas, era uma obrigação legal. Não era coisa de pessoas carentes, que não têm outra opção, como hoje em dia, lamentavelmente querem rotular, com um discurso altamente questionável acerca do que é ter uma Pátria como o Brasil e suas responsabilidades para com ela. Eu penso, na realidade, que é uma absurda anomalia os filhos da classe média alta e os ricos não prestarem o serviço militar obrigatório por questões de casta, por se acharem bons demais para cumprirem com seu dever para com a Nação. É minha opinião, e sinto grande constrangimento quando vejo inclusive as mulheres ricas de países desenvolvidos servirem nas Forças Armadas, os royals, e vendo o que acontece por aqui. Esse tipo de preconceito, associado com esperteza, também se reflete quanto ao trabalho em atividades mais simples. Em outra crônica vou relatar um encontro que tive com uma filha de um barão de Wall Street, vendendo CDs na loja da Virgin em Times Square, e ela toda alegre me dizendo que aquele era o emprego de férias dela. Algo impensavel no Brasil, pródigo em preconceitos. Fecha parêntesis. Terminei o segundo grau no Batalhão da Guarda Presidencial, após a baixa, tive experiências muito diferentes depois (nesse período foi que comecei a correr), fazendo e passando em concursos, indo para a faculdade noturna de Direito, galgando degrau a degrau, simplesmente seguindo o fluxo da vida. Ninguém falou que não podia, alguns até tentaram, mas eu estava ocupado lendo, estudando e vislumbrando meu futuro, não com uma visão trágica do menino carente que sobe na vida, mas apenas com a visão de que aquilo tudo era absolutamente natural. Claro que tive a oportunidade de provar para mim mesmo que aquela minha visão de vida tinha lastro, que era uma coisa da vida real. E chegaram aqueles dias, em que disputei com os melhores alunos das melhores universidades do país, e deixei milhares deles para trás, ocupado posição muito almejada no mundo jurídico. Reputo tudo, absolutamente tudo, cem por cento normal para mim. Não me considero superdotado, não sou a exceção que confirma a regra – outro chavão que ouvi muito -, nunca ocupei nenhum emprego ou cargo que não fosse resultado de concurso ou mérito exclusivo. Apenas trabalho duro, seguindo a corrente, estudando muito e sempre, fora do universo dos documentalistas, dos perseguidores de diplomas, Busco o conhecimento, e tenho tido bons resultados nessa busca, na verdade uma busca interior, uma busca pelo significado da vida. Acho que por sempre tentar seguir um caminho alternativo, sem fixações ou fórmulas prontas, acabei atingindo o bem estar material, o progresso profissional, como uma consequencia. Em certo momento era algo quase mágico, tudo o que eu fazia dava certo, como se seguisse um roteiro determinado. Não era mágica, era Deus, mas aí já é tema para outras crônicas. As portas somente se abrem se você fizer a sua parte. E aqui resumo o que estou tentando dizer, com esta breve incursão em minha biografia: apesar de tudo, sempre me senti em condições de igualdade com quem quer que seja, sejam os ricos, os abastados, os medianos, os emergentes, Qualquer catalogação que se queira colocar aqui, mas esse era um sentimento genuíno. A atitude faz toda a diferença. Esqueça sua origem, seus traumas, suas fraquezas, foque no alvo. Faça sua parte, mesmo sem sobrenome, sem pai (meu pai era português, aqui sou igual o Eric Clapton, depois conto essa história), sem colégios caros ou visões sociais estereotipadas. Os livros estão aí. Estude, ainda mais hoje em dia, com a internet. Just do it. Simplesmente faça. Sem desculpas. Verá o “milagre” acontecer na sua frente. Se der um ou dois passos verão que as portas estavam fechadas apenas em suas cabeças, e que há, sim, ferramentas a sua disposição para seguir em frente. Apenas tenha fé e um pouco de autoconfiança. Isto não é autoajuda. É realidade. Preto no branco. Confie. Em Deus e em vocês. É o que basta.
Epílogo. O personagem, quase se redimindo, conclui que, ao fim e ao cabo, o que importa é o amor. Não o poder ou o dinheiro. Não apenas o amor romântico, perseguido pelas leitoras de Júlia, Sabrina e Barbara Cartland. E por todos nós. O amor que nos dá a conformidade humana. Admitamos ou não. Mas assim como a riqueza é distribuída de forma injusta, também o amor o é. Há uma grande lacuna amorosa no mundo, em nosso dia a dia, em nossas escolas, em nossos trabalhos. Nas relações pessoais alguns têm mais, outros têm menos. E aqui, caros leitores, há a absoluta igualdade entre nós, o denominador comum que nos coloca em pé de igualdade, com uma expressão perplexa em noites frias de lua cheia e o coração apertado, cheio de dúvidas e carências. Estamos sós em nossa busca pelo amor, uma busca que não cessa em casamentos de sucesso ou nem tanto, ou em relações familiares, mesmo as mais ortodoxas e equilibradas. Essa a igualdade absoluta. A busca incessante pelo amor e os efeitos dessa busca em nossa vida, em nossas relações interpessoais. O que nos torna desiguais é nossa percepção dessa realidade. Preparem-se.
Aqui, também, não há soluções prontas. Fórmulas mágicas. Apenas siga o fluxo. Sigam seus corações. Qual a profundidade do seu amor.
VALDIR SILVA