A técnica é esta: o Pelotão fica de prontidão, sentado na viatura, o caminhão de transporte de tropa. Velocidade média de 60 km por hora. Então os dois primeiros homens, que estão sentados mais próximos da cabine, de frente um para o outro, se levantam e aguardam a voz de comando, preparar para desembarcar, desembarcar. Aí precisam sair correndo com a maior velocidade possível, e se lançar no ar, com o fuzil cruzado ao peito e com todo o equipamento ajustado: mochila cheia, cinto NA completo, com cantil e demais equipamentos, capacete de aço. O impulso para a frente e para cima vai quebrar a resistência do ar, e o guerreiro vai conseguir aterrisar sem colocar em risco sua integridade física além do necessário e do inevitável. Sim, porque éramos do PELOPES – Pelotão de Operações Especiais do Batalhão da Guarda Presidencial, e correr riscos e nos machucar fazia parte da rotina, seja nas pistas de cordas nas alturas, com os explosivos, nos exercícios de tiro. Em menos de um minuto toda a equipe já desembarcava, entrava na mata e a partir daí era cumprir a missão. Éramos 34 homens no PELOPES, dentro de um efetivo de aproximadamente 1500 homens em todo o Batalhão. Como já falei nestas memórias de caserna, nós integrávamos a Companhia do Cerimonial, tropa de elite da qual o próprio Duque de Caxias fez parte, e também fazíamos cerimônias, mas nosso negócio, nossa missão principal, era estar em condições para operações especiais diretamente relacionadas à Presidência da República, tanto na área urbana quanto na área rural. Uniforme camuflado usado apenas por nós. Grande honra, grande irmandade, até hoje viva. Quando cheguei na Cerimonial não era exatamente um guerreiro, era tímido, intelectual, introspectivo, e tinha um longo caminho a percorrer até os exercícios do SUOPES em nossa Região. Romar, as broncas do Sargento Castro, percebo agora, eram necessárias, era preciso despertar. Exercícios muito rigorosos que até hoje fazem parte de nossas memórias, como sobrevivemos, Bisol? Mas o Exército com certeza é um espelho, uma metáfora de toda a vida, e fui integrado ao PELOPES, fui crescendo como pessoa, fui aprendendo a vencer meus medos, aprendendo a me adaptar, e devo dizer que foi tudo muito árduo e gratificante, e que dei o meu máximo, e essas lições se mostram essenciais em minha vida. E assim fui vendo com estes olhos e este coração eu e aqueles irmãos virarmos guerreiros muito competentes, com muita vibração, conscientes do peso daquela farda e do representava para o BGP. Pelopeiros, irmão Sccapelatto, tatuados não apenas nos braços, mas também no coração. Vi nascerem gigantes na luta pela vida. Mas o desembarque de viaturas em movimento começou nas alamedas do quartel, mas naquela noite era uma estrada mal iluminada por uma lua que apareceu tímida, depois de uma semana de chuvas intensas, com nós comendo basicamente ração R2. Alto guardado. Reconhecimento da área. Saíamos em patrulha, andando a noite toda. Aprendi algo insuspeito: podemos quase dormir e andar ao mesmo tempo. O ritmo era intenso, nada de barulho, apertar os equipamentos. Cada um de nós tinha uma função específica no pelotão, eu era o soldado primeiro esclarecedor do primeiro grupo de combate. Havia também o snipper, o home bússola, etc. etc. Era um relógio que precisava funcionar direito, senão a vida de todos corria perigo. Nossos treinamentos eram reais, não havia ralação, um pelopeiro tinha um treinamento muito mais rigoroso do que o que se vê em Tropa de Elite, mas rigor não significa ralação sem sentido, humilhação. Éramos muito respeitados, mas sem nenhuma moleza. Vou falar sobre aqueles treinamentos em outra oportunidade. E aquela noite bivacamos no meio da selva. Como dizia o Sargento Marcon, pelopeiro não acampa, pelopeiro bivaca. E amanheceu, estávamos realmente cansados, pouca água (até o próximo riacho no meio das árvores). A missão era tomar uma base inimiga. Aula de comando. Samartano, é com você. Assuma o pelotão, isto pode acontecer na vida real em combate. Ficou a lição de vida. Avançamos, Samartano no comando. Sempre avançar. Conquistamos a posição. Voltamos para Brasília no fim da semana. Sensação de dever cumprido. Muitas vezes temos que decidir, temos que reunir forças, temos que orar e rezar. Nessas horas pensamos em tudo. Nos que dependem de nós, em nós mesmos, em nossa história. Sempre em frente. Preparo e coragem. É o único caminho. Como naquelas viaturas em movimento. VALDIR SILVA