A chegada a Brasília em outubro de 1971 foi uma sucessão de surpresas. Viemos de trem, dois dias de viagem, e ali continuava a aventura. Considero minha vida em São Paulo até os 9 anos de idade uma grande aventura, era assim que eu via tudo, e me lembro de detalhes. Aquela época merece uma série de crônicas, e as farei.
Mas Brasília no início, no Gama, era algo diferente de tudo que eu já tinha visto na maior cidade do Brasil. Casas de alvenaria ainda sendo construídas, muitos barracos em lotes amplos. Ver aquelas casas nascerem era uma experiência única, emocionante, os diferentes tipos de construções. Coisa de pioneiros mesmo. Aqueles dois anos morando no Gama parecem dez, tamanhas eram as experiências que lá vivi. Difíceis e ao mesmo tempo doces experiências. Mas em um período fomos morar na casa de um tio, e lá eles oravam antes de cada refeição, nós as crianças olhando os bolinhos e batatas fritas na mesa, ansiosos. Aquilo era novo, e também os cultos que eram feitos nas casas, às quartas-feiras. Era muito divertido andar por aquelas ruas no início da noite, sentindo o cheiro da chuva e da vegetação, sem medo de assalto. E os trabalhos da Igreja, cartõezinhos de cartolina com versículos, feitos e desenhados um a um, com capricho. Cultos aos domingos, escola dominical, figuras humanas inesquecíveis. Havia a Igreja Batista e a Brasil para Cristo, que já conhecia de São Paulo. Ritmos e estilos totalmente diferentes, e revezávamos. O lanche na volta para casa. Aqueles dois anos foram marcados pela Igreja, as erosões pioneiras, a busca pela sobrevivência. Sete mudanças em 2 anos.E muita leitura e caminhadas por aquelas ruas poeirentas e enlameadas na época da chuva. 3 escolas. Minha mãe teve 4 empregos naqueles dois anos, vendedora de carnês da Erontex, tipo Baú da Felicidade, e todo dia a esperava no ponto de ônibus, perguntando quantos carnês havia vendido. E os trabalhos como empregada doméstica de Senador da República, futuro Governador de Santa Catarina, de Diretor de Estatal e, finalmente, como servente do Colégio do Setor Leste, e como vibramos com aquela conquista.
Sim, senhores caminhoneiros, sei o que passam e como é importante, é vital, que o suor de seus rostos sejam respeitados.
Suor sagrado, nas ruas, nas cozinhas, nas escolas, nas boleias.
Saímos do Gama em 1973, e a ida à Igreja já não era tão frequente. Eu levava minha avó de vez em quando, e eram manhãs muito especiais. Alguns fins de ano. Não mais do que isto. Alguns cultos em residências, algumas revelações impressionantes.
O retorno 10 anos atrás foi acompanhado por grandes mudanças em minha vida. O deserto realmente existe, e é muito doloroso e impossível de ser transposto sozinho.
“Blessed” me acompanha desde então.
Mas recebi o maná, agora é preciso seguir.
Concordo, é preciso agradecer e dizer que as coisas são muito mais complexas e misteriosas do que nossa cultura, nossos cargos e nossa vaidade possam admitir. Aprendi isso na última década.
As sementes estavam naquelas tardes geladas de São Paulo, quando ensinava minha avó a ler com a Bíblia, João 3:16, e naqueles cultos nas casas em noites distantes, em tempos guardados na memória.
Estava escrito, disseram-me semana retrasada, e peço a Deus que nos ilumine e nos indique os caminhos.
VALDIR SILVA