AQUILO QUE NÃO FOI DITO
Há coisas realmente inesquecíveis, que ficarão em nossa memória até o último momento, o tal do filme que passará em nossa mente quando nossos últimos momentos nesta aventura terrena estiverem chegando ao fim.
No meu caso, esse filme é constantemente rebobinado, minhas memórias são parte integrante de meu presente, em um vai e vem constante.
O bom é que essa eterna volta ao passado serve para que eu vivencie o momento com mais intensidade, é um complemento, um aperfeiçoamento.
A famosa experiência.
Mas claro que seleciono alguns pontos culminantes, pois são esses que se fazem presentes, mesmo que as pequenas coisas também não sejam esquecidas, mas em um segundo plano. E é aqui que alerto a vocês: pontos culminantes não são necessariamente os momentos bons, muitos maus momentos insistem em invadir minha consciência, de forma inoportuna, insidiosa.
E há um esforço constante para que lembranças negativas não influenciam meu presente. É uma luta hercúlea. Tenho sucesso na maior parte das vezes.
Muitas pessoas ficam presas em experiências negativas, em pessoas realmente más – elas existem – , em traumas e frustrações.
Tudo isso forma uma sombra, algo pegajoso e pesado, que insiste em te segurar e te fazer infeliz.
Fuja disso, com todas as suas forças.
Não ande em círculos, a vida passa rápido e é agora, e tudo o que você tem é o presente e o futuro que você mesmo construirá, com as pessoas certas, as emoções direcionadas, com a fúria e a perplexidade contidos.
Mas este texto de hoje é para dar uma boa notícia: como todos nós provavelmente já sabemos e sentimos, o contrário do que falei acima também é verdade, ou seja, as pessoas, os fatos, as coisas boas que nos aconteceram, ainda hoje nos alimentam, e a boa notícia é que temos, de fato, um poder benéfico, extremamente forte, que influenciou e continua a influenciar todos a nossa volta.
Geralmente são as palavras que nos impactam com força insuspeita.
Lembro das palavras soltas que me fazem sorrir em dias difíceis.
Na infância e adolescência eu era muito tímido, sempre ótimo aluno, e aquelas palavras de incentivo de certa forma foram de dando uma autoconfiança muito forte, que provavelmente não teria se me baseasse apenas em minha desenvoltura social, praticamente nula, por motivos vários, principalmente econômicos, vejo agora. Como socializar em programas e festinhas juvenis se o básico era conquistado a duras penas? Este é tema para outra oportunidade, mas aqueles elogios foram moldando minha personalidade e me fizeram encarar tudo na vida, no mínimo, em condições de igualdade.
Certa vez uma colega de classe me disse, gosto de você exatamente do jeito que é, e aquilo realmente me deixou feliz, uma frase solta em uma aula do Centro Interescolar de Línguas, em uma aula noturna de inglês uma quinta-feira chuvosa.
Claro que ouvi palavras negativas pelo mesmo motivo que ouvia as palavras que me erguiam, a timidez, a introspecção, temperamento observador, estereótipos ridículos que eu detectava na hora, mas não tinha desenvoltura para revidar.
Como é triste o espetáculo de pessoas medíocres e limitadas, em inúmeros aspectos, tentando tripudiar sobre pessoas aparentemente indefesas.
Vivi esta experiência algumas vezes
Não tenham dúvidas, meus leitores, ser diferente em certa época da vida é difícil, mesmo que essa diferença seja condição e a chave para uma vida muito mais interessante no futuro. Você sai dos padrões, se interessa por coisas diferentes e tem uma vida interior muito maior.
É o preço que se paga.
Mas você é bombardeado o tempo todo com considerações sobre suas pessoa, está no palco, o que é uma anomalia, já que a vida é única e intransferível, mas a maioria das pessoas tenta conferir um certo colorido as suas vidas tratando de falar mal dos outros.
E sem qualquer glamour estilizado, como faziam os quatro cavaleiros do apocalipse das Gerais (Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino. Cony tinha até uma coluna para isso, eu seus primórdios como cronista).
Se há uma ideia central neste texto de hoje é o cuidado que devemos ter com nossas palavas.
Com a maledicência.
Se for fazer algum comentário para e sobre alguém, meça bem suas palavras. Elas marcam a ferro e fogo.
Pense que uma palavra de incentivo em determinados momentos pode mudar a vida de uma pessoa. As palavras torpes, as ofensas, as críticas ferinas e destruidoras, também.
Se, de algum modo, tenha ofendido alguém, peça desculpas, mesmo passados 40 anos.
Tenha certeza de que suas palavras, seus atos, não foram esquecidos esse tempo todo.
Vai ficar mais leve.
Agosto de 2018.
Três das melhores horas que passei neste turbulento ano.
Show da Laura Pausini em Brasília. Terceiro show ao vivo dela que assisto.
Difícil imaginar hoje em dia cantora mais simpática e competente.
Entrega total, respeito aos fãs. Ficamos na quinta fileira, bem ao lado do palco. Antigos e novos sucessos. Como se fosse uma antiga e atual amiga.
No final, ela disse que, na próxima turnê, gostaria de sentar na plateia e perguntar para os fãs, por que Laura Pausini, por que você gosta de mim?
Se Deus quiser, estaremos todos lá de novo, e quem sabe eu terei a oportunidade de dizer, porque você é antes de tudo uma cronista da vida, uma apaixonada, suas letras são profundas, e você passa alegria autêntica em época tão artificial.
E porque somente você, Laura, seria capaz de resumir tudo que o que aqui escrevi, nestas linhas, na canção “Non è detto”.
Perdoe-me por aqueles dias. Eu não sabia como agir.
VALDIR SILVA