FARDA CAMUFLADA

Quando se fala hoje em dia em farda camuflada, no Batalhão da Guarda Presidencial, talvez os novos Granadeiros não entendam o que isso significava quando nós lá estávamos, como integrantes do Pelotão de Operações Especiais, da Companhia do Cerimonial.

Sei que já falei sobre isto algumas vezes, mas estou ciente da necessidade de preservar nossa memória militar, já que o PELOPES não mais existe naquela histórica unidade, onde o próprio Duque de Caxias serviu.

Daí o BGP ter incorporado o nome “Batalhão Duque de Caxias”, patrono do Exército Brasileiro.

Na época tinha um efetivo de aproximadamente 1200 soldados, divididos em 6 Companhias e a Companhia do Cerimonial, a Companhia de Elite, com soldados escolhidos a dedo, cono dizia o grande Capitão Castro.

Éramos os mais altos, selecionados em entrevistas, e a maioria já tinha terminado o antigo Segundo Grau. As missões mais complexas eram destinadas à Cerimonial. Inclusive as cerimônias da rampa do Palácio do Planalto eram feitas apenas pela Cerimonial, bem como as guardas de honra quando o Presidente da República viajava e chegava do Exterior, guarda que era formada também com a Marinha e a Aeronáutica.

Então, naturalmente, havia uma rivalidade entre a Cerimonial e as demais Companhias.

Mas a Cerimonial tinha uma particularidade a mais.

É nela que estava o Pelotão de Operações Especiais, nosso PELOPES.

Éramos 4 Pelotões, e o PELOPES era um deles.

Eu era do PELOPES.

Também fazíamos o cerimonial militar, e muito bem, mas nossa missão principal era exercer as atividades típicas de forças especiais, com a responsabilidade maior de sermos especializados no Batalhão que tinha – e tem – a responsabilidade de proteger o Presidente da República.

Claro que nestas crônicas sobre o Exército falarei sobre como era duro nosso dia a dia, como éramos cobrados, e como isso nos orgulhava.

Éramos os únicos no Batalhão da Guarda Presidencial que usávamos a farda camuflada, modelo que vinha desde a Segunda Guerra Mundial, isto nos informou o pelopeiro Samartano esta semana.

Mesmo nossa farda comum de campanha, verde oliva, tinha nosso nome de um lado, e o nome PELOPES de outro.

Éramos o pelotão de elite do Batalhão, dentro da Companhia de Elite.

Trinta e quatro homens, em um contingente de mil e duzentos Granadeiros.

Alguns já se foram, cumpriram sua missão nesta vida; com alguns ainda mantemos contato até hoje.

A farda de gala do BGP foi desenhada por D. Pedro I, sóbria, imponente. Recentemente percebi que fizeram alterações nessa farda de gala, e confesso que fiquei muito triste com isso.

Espero que retomem o modelo original, com o FO Mauser maior, com a baioneta de aço e o porta baionetas (retirado do modelo que passaram a envergar), barretina e pompom maiores. E a cadência de marcha também foi mudada, nossa grande característica era a “cadência de trem entrando na estação”, as paredes tremiam, todo mundo sabia de longe que a Cerimonial, a Pesada, estava chegando.

Levantávamos bastante as pernas e batíamos os sapatos com força no solo, e o efeito era espetacular.

Aqui fica a sugestão de volta à farda e cadência históricos.

Mas a farda camuflada era realmente mística, e sentíamos seu peso toda vez que a vestíamos. Tivemos instrução militar que nos ombreava com qualquer força de elite internacional.

Asfalto e selva, e vencemos o SUOPES, como bem lembrado pelo Sargento Barbosa recentemente.

Honramos aquela farda camuflada, e ela nos fez mais fortes, mais solidários.

Irmãos, na melhor acepção da palavra.

Vivíamos acampados tendo instrução.

Muita chuva, muito sol.

Marchas sem fim, dia e noite. Saltos de viaturas em movimento. Rios.

Tiros, explosivos.

Cobras cascavéis e corais, que mandávamos para o Instituto Butantã.

Chegávamos de volta ao quartel com nossas fardas camufladas em estado lastimável, sujas, enlameadas, às vezes rasgadas.

No Exército nós mesmos lavávamos nossas roupas, nossas fardas, menos a de gala.

Aprendemos a engomar as fardas de campanha, a revista era rigorosa, e era uma coisa fenomenal.

E muito trabalhosa.

E por incrível que pareça, a única farda que eu não lavava era justamente ela.

A farda camuflada, depois dos incontáveis acampamentos.

Era minha mãe quem lavava.

Eu era um dos cinco candangos da Companhia do Cerimonial. No PELOPES havia apenas mais um guerreiro de Brasília, o Sidnei.

Eu chegava em casa, colocava minha farda camuflada na área de serviço, e no dia seguinte lá estava ela, lavada, secando, pronta para outra missão.

Minha mãe faleceu em janeiro de 2019, depois de dois meses e meio internada.

Lutou como uma guerreira, como sempre fez na vida.

Ao folhear sua Bíblia no hospital, minha filha encontrou um brasão original do BGP no Salmo 91.

Ela guardava também meu primeiro uniforme como menor aprendiz de um grande Banco, meu primeiro emprego.

Também está lá guardado meu primeiro terno, que comprei em prestações após passar em concurso público em um Tribunal, após dar baixa do Exército.

Jessica fez um belo texto sobre minha mãe, e o leu no dia do enterro.

Eu divulguei esse texto para alguns amigos.

Eu li o Salmo 91 , que ela sempre mandava eu ler quando viajava.

Seguia a orientação dela, e sempre levava um pequeno Novo Testamento no bolso da farda.

O que fazia também quando era sentinela, nos palácios presidenciais e na residência do Presidente da República.

Nunca contei para minhas filhas sobre minha mãe lavando a farda camuflada do PELOPES.

Se tivesse contado, provavelmente Jessica falaria sobre o rosto de alívio e orgulho de minha mãe ao poder, mais uma vez, lavar aquela farda camuflada.

Minha amada e inesquecível mãe.

VALDIR SILVA

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