FRANGO METRALHADO
A incorporação ao Exército, na minha época, gerava sentimentos ambíguos. O serviço militar era, como é, obrigatório, então o homem prestes a completar 18 anos de idade já começava a ter essa ideia permanentemente na cabeça. Serei selecionado? O que acontecerá comigo? Será que não consigo uma dispensa? E meus estudos? Etc. Etc. Etc.
Confesso que a ideia de não servir ao Exército nunca passou pela minha cabeça.
Para mim era o natural, já que era uma obrigação legal.
E havia em Brasília uma mística envolvendo os maiores quartéis, que eram o Batalhão da Guarda Presidencial (BGP, os Granadeiros), o 1º Regimento de Cavalaria de Guardas (RCG, os Dragões) e a Polícia do Exército (PE), a grande maioria do contingente morava mesmo nos quartéis, já que não havia brasilienses em idade de prestar o serviço militar, eram muito poucos. Como já falei em outros textos, na minha Companhia, a Companhia do Cerimonial do BGP, só havia 5 pessoas de Brasília, e eu era um deles, apesar de ser paulistano.
Então a grande maioria dos soldados vinha do Sul, os Catarinas, e outros também de Minas Gerais, São Paulo e Goiás.
Por isso, a cidade era virtualmente tomada pelos soldados daqueles quartéis nos fins de semana, todos fardados, ostentando orgulhosos os brasões de suas unidades, e há muitas histórias da rivalidade dos irmãos do BGP e do RCG, sempre atentos ao controle da PE em todos os locais públicos.
A PE verificava com rigor quem estava devidamente fardado, se o cartão de cabelo estava em dia, se os soldados estavam autorizados a usar roupas civis.
Mas esses detalhes internos só saberíamos depois.
Antes, o que ficava na cabeça dos futuros soldados era o que nos esperaria lá dentro, e olhávamos aqueles caras pelas ruas e obviamente que havia um receio, já que eram claramente uma irmandade, com códigos e comportamentos específicos, e o novo assustava.
Algum tempo depois constatei que eram, na verdade, uma família, e que essa família continua presente décadas depois.
Claro que rondava a cabeça de todos, dentre milhares de outras preocupações, a questão da comida. Como seria a comida no quartel.
E havia muita lenda urbana aqui.
Mas o fato é que fui selecionado para servir no BGP, na Companhia do Cerimonial e no PELOPES.
A questão da alimentação obedecia a um ritual antes de tudo bonito, emocionante.
Café da manhã, almoço e jantar.
Quando íamos fazer a cerimônia da rampa no Palácio do Planalto, havia um lanche antes.
E tanta coisa a ser dita sobre o lanche do pernoite, as refeições nos palácios da Alvorada, Jaburu, Granja do Torto, HFA, Riacho Fundo.
A ceia de Natal com o Presidente da República, na qual infelizmente não fui, passei em casa o Natal, e este é um de meus arrependimentos daquela época, eu deveria ter ido, já que uma ceia com o Presidente da República e meus irmãos de farda jamais se repetiria. Mas a vida é assim, cada escolha importa em uma renúncia, às vezes definitiva.
Mas havia as refeições no estande de tiro.
E as refeições do PELOPES nas matas merecem um capítulo à parte.
Grandes lembranças, é preciso registrar.
Farei isto.
Mas a ida das Companhias para o rancho, na hora do almoço, era um evento marcante que se repetia a cada dia.
As sete Companhias do quartel aguardavam o toque do corneteiro para avançar para o rancho, e assim que uma saía, outra avançava, era preciso um planejamento de deslocamento, de acordo com a capacidade do rancho, que era nosso refeitório.
Cada Companhia com aproximadamente 140 homens.
E íamos, todos, marchando, cada Companhia entoando seu grito de guerra, com extrema vibração.
Algo de arrepiar.
Cada soldado com seu caneco e sua bandeja, que foram fornecidos assim que chegamos no quartel. Ordem absoluta, quando cada Companhia chegava nas mesas parecia que ninguém tinha estado lá. Tudo absolutamente limpo.
O corneteiro chamou a Cerimonial, A Pesada. Nós com nosso caneco amarelo e a bandeja de aço.
Eu tenho 1,91 de altura, e na formação da Companhia ficava na quarta fileira. Um verdadeiro paredão na minha frente. Não me recordo de qualquer deslocamento da Cerimonial pelo quartel, sempre marchando, sem que houvesse nossa marca de vibração. Houve, na verdade, somente um caso, que relatarei em outra crônica. Lição de vida.
E lá fomos nós, alguns com vidros de molho de pimenta no bolso da calça. Cantando o hino de nossa Companhia. As paredes do rancho tremiam com nossa chegada, batíamos o pé com força no chão, muitos se levantavam para nos ver chegar.
Em outra ocasião eu estava de serviço na Companhia e a vi voltar do almoço, do alto da rampa, , e realmente aquilo era muito diferente, era uma vibração inata, e eu tinha muito orgulho da Cerimonial, como meus irmão também tinham, havia uma consciência de nosso papel no contexto do Exército, no cerimonial da Presidência da República, em uma unidade criada por D. Pedro I, na qual serviu Duque de Caxias.
Mas este é um texto sobre comida.
A comida, caros leitores, era boa.
Rústica, feita para a tropa, porém boa.
Alguns dias melhor, outros dias pior.
Muito nutritiva.
O molho de pimenta salvava o dia muitas vezes, e trouxe este hábito até hoje em minha vida.
Ovos cozidos pela manhã, mariolas, frutas, o leite apelidado de Kaol, o eterno chá mate.
Serviam chá mate em todas as refeições, e logo ele entrou na lista de suspeição, apelidado de chá antiafrodisíaco. O termo usado era outro.
Mas não teve dias em que a comida estava realmente ruim?
Claro.
Uma vez eu estava de serviço, e fomos marchando para o rancho, e a comida estava tão ruim que começamos a rir. E voltamos muito alegres para a Companhia, e aquele dia virou uma cara lembrança agora, e talvez esta seja uma das maiores características do Exército, nos fazer sorrir com as coisas difíceis que passamos, a não valorizar o ruim, mas a aprender a superar, e a aproveitar em intensidade as experiências diferentes, a sair de nossa zona de conforto.
Acreditem, vou sair para almoçar e pedir um frango ensopado, em um bom restaurante, e lembrarei com saudade de cada um daqueles almoços e jantares, daquele frango metralhado, naquele eterno rancho que ainda ecoa nossos passos. VALDIR SILVA