NEW YORK CITY MARATHON I – CONFESSO QUE CHOREI

NEW YORK CITY MARATHON I – CONFESSO QUE CHOREI

A ideia surgiu após a Corrida de São Silvestre, que corri em dezembro de 2014, no dia 31.

Achei que seria muito bom correr a São Silvestre, na passagem do ano, voltando ao mundo das corridas depois de quase 20 anos sem correr em alguma prova oficial.

Eu comecei a correr em 1983, depois que saí do Exército, e aquele livro do James Fixx teve um impacto enorme em minha decisão de me tornar um corredor.

Naquele tempo não era comum sair correndo pelas ruas, e eu somente tinha feito isto correndo pelo Cruzeiro com minha Companhia do Cerimonial, do Batalhão da Guarda Presidencial, e mais com o Pelotão de Operações Especiais, o PELOPES, que eu também integrava.

Aquelas corridas merecerão um relato depois, nestas minhas lembranças.

Mas aquela capa do corredor no livro do Fixx, que era o próprio Fixx , aquela aura de aventura, a ratificação de que eu poderia sim fazer algo que ninguém mais fazia onde eu morava, e a possibilidade de também manter meu condicionamento físico, me fizeram sair por aquelas ruas, e a conhecer possibilidades físicas que sequer sonhava ser possível.

Tudo isto me levou a um processo que me fez, como num passe de mágica, a estar na linha de largada da Primeira Maratona de Basília, que completei aos 22 anos de idade, com um excelente tempo

O fato é que, por diversos motivos pessoais e profissionais fiquei afastado das ruas, apenas fazendo uma corridinha aqui e ali, sem nunca ter parado completamente, mas também longe de uma realidade e corredor ou do título de maratonista arduamente conquistado em 1985.

O que ocorre é que a chama do maratonista nunca se apaga, e vive lá dentro, sempre te alertando de que é capaz de fazer coisas memoráveis, que aquela vida sedentária e estressante não pode te segurar, não pode te afastar do vento, do cheiro da grama, da enorme sensação de paz que vem após um treino longo, na chuva, no sol, nas noites de lua cinematográfica no Planalto Central.

É algo que não te abandona, que fica o tempo todo te cobrando, e você fica insatisfeito e até mesmo envergonhado por estar deteriorando seu corpo, sua mente, por estar se nivelando aquelas pessoas que, lá no início, mal podiam esconder sua frustração por você estar teentregando o que prometeu: o algo mais, a busca por algo transcendental, o exemplo, o compromisso com a vida e por tudo o que viria.

Então dobrei a esquina da Avenida Paulista, vi lá longe minhas filhas, deu uma vontade grande de chorar, a São Silvestre não é tão longa para um maratonista quase aposentado, mas tinha muito simbolismo, e eu estava de volta.

O projeto New York City começou ali, na beira do MASP, a caminho do merecido banho de piscina no hotel com a Jessica e a Sarah, minhas filhas, minhã amada mãe e a Zélia esperando para vermos a passagem do ano.

A preparação começou em janeiro de 2005, e eu estava muito pesado e fora de forma, apesar da São Silvestre. Comecei a correr 3 vezes por semana, e passei a frequentar a musculação.

Como sou autodidata e refratário a orientações em vários aspectos de minha vida, tinha resistência a ter um técnico, um profissional da educação física me orientando. Até que tentei,  mas percebi que aquilo não me levaria a lugar algum.Então fui na fonte, no clássico de Bob Glover e Shelly-Lynn Florence Glover, o “The Competitive Runner’s Handbook”, que está ali na minha frente em minha estante, na prateleira cheia de livros sobre corrida de longa distância, brasileiros e americanos.

O tempo ia passando velozmente, eu fazendo muitas abdominais em casa, muitas flexões, e indo aproximadamente 2 vezes por semana na musculação.

Quando consegui meu visto em julho de 2005, voltei da Embaixada Americana já tendo a certeza de que iria, sim.

Claro que senti o baque, o tamanho da missão que iria cumprir alguns meses depois.

Até lá havia a possibilidade de o projeto não ir para a frente, pois dependia do visto. Senti que estava me aproximando de uma nova realidade em minha vida, um divisor de águas.

A sensação do desconhecido.

Tinha que apertar o treinamento, equilibrar a cabeça.

Naquela época eu estava lutando muito em meu trabalho.

Nada do que aconteceu naquele período foi capaz de me derrubar, eu estava muito forte também psicologicamente.

Alguns dos longões de fim de semana eram feitos com minha filha Jessica, que me acompanhava de bicicleta pelas ruas.

Saíamos do Sudoeste, íamos até a Asa Sul, Eixão, voltávamos lá por baixo, pelo Setor Policial. Eu preocupado com ela nos trechos sem calçada. Muita música, água, Gatorade, gel, doces e inesquecíveis lembranças, a mágica da corrida de longa distância.

Sim, era o papai, forte como ela não imaginava ser possível.

Bauer!

Jessica e Sarah, era o retorno!

A sensação de poder, de autoconfiança inabalável na minha mente e no meu corpo estavam voltando, exatamente como quando eu tinha 21 anos de idade, e começava a me assombrar, mais uma vez, com o que a corrida pode fazer com nosso corpo e mente.

Eu me sentia invencível naquela época, e a sensação estava voltando.

Inacreditável!

E também estavam de volta os derrotistas que diziam que eu, aos 43 anos de idade, já estava velho demais para terminar uma maratona! Exatamente como no início. Mas eu estava em outra, estava forte, estava ansioso, a novidade que se avizinhava.

Eu estava prestes a atravessar aquela fronteira, e para sempre.

E meu maior amuleto naquela travessia veio na forma de um bilhetinho de minha amada filha Jessica, companheirinha de treinos, que o entregou para mim no aeroporto, que li naquelas cadeiras e que me fez chorar muito.

Estava por conta, como tantas outras vezes em minha vida.

Como no primeiro dia de trabalho no Banco do Brasil, aos 14 anos de idade, ao sair daquele ônibus na parada a caminho do Banco, minha mãe me olhando pela janela.

Como no primeiro dia de Exército, ao chegar naquele ambiente tão duro, e que me daria algumas das experiências mais fantásticas de minha vida.

Parecido com os dias em que minhas princesas Jessica e Sarah nasceram, e que trouxeram uma intensa luz a minha existência.

Mas agora a luta era para me manter equilibrado, sem violar minhas convicções pessoais, minha ética de vida.

Eu iria para o exterior, para New York City, correr a maior maratona do mundo, a mais difícil e glamourosa, em minha primeira viagem aos Estados Unidos, aos 43 anos de idade, para deixar claro mais uma vez para aquele menino pobre das tardes geladas de São Paulo, que comia farinha e açúcar como lanche da tarde, sozinho naquela casinha humilde em Vila Guilherme, que eu não iria traí-lo, que realmente a vida podia ser diferente, luminosa, e que sua fé não seria em vão.

A tela do avião mostrava que o oceano ficava pra trás, que New York se aproximava, que o sonho continuava, muito além de minhas expectativas.

Estava entrando em um filme, minha identidade era outra, tudo era possível.

“Quem diria pai, aquele menino pobre indo para New York. Te amamos”.

Não, na chegada da incrível, mítica, inacreditável New York City Marathon eu não chorei, estava extremamente feliz, ouvindo Eric Clapton cantando e tocando sua guitarra desesperada em  “White Room” em meu I Pod, ao lado de milhares de outros irmãos maratonistas de todo o mundo, todos com a felicidade estampada no rosto.

As lágrimas daquela viagem foram exclusivas para aquela linda mensagem de minha filha mais velha, que guardo com carinho até hoje.VALDIR SILVA 

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