PEQUENO COMENTÁRIO A RESPEITO DE ELTON JOHN
Meus pacientes leitores, deixem-me falar algo, logo de cara: viver nos anos 70, com consciência musical, com gosto pela música pop, aqui entrando o rock, o jazz, o blues, mas principalmente o “pop mesmo”, era uma festa.
Uma confluência de todas as vertentes, todas as paixões, todos os sonhos, as mudanças de era, as válvulas de escape políticas, a busca pelos novos e antigos sons, estava tudo lá.
Ao vivo, em cima do lance.
Era chegar nas discotecas e perguntar, cadê o novo LP do Queen, cadê o novo LP do ABBA, cadê o novo LP do Johnny Rivers.
E o tal dos “Embalos de Sábado à Noite”, com um certo John Travolta e uma loirinha chamada Olivia Newton John. Tim Maia no auge da carreira, Zé Rodrix, Belchior, Francis Hime, Guilherme Arantes.
Um catálogo inesquecível, e hoje a indústria cinematográfica e fonográfica volta aquele tempo avidamente, na tentativa de resgatar um pouco daquela mágica (e dos dólares).
O impacto da música era muito mais forte do que hoje (apesar do bilhão de visualizações do Justin Timberlake em seu novo hit, diga-se, de passagem, de forma merecida), porque não havia outras formas de cultura de massa como existe hoje, nada de internet, celulares, e tudo isso que vemos por aí hoje. Telefone era coisa de gente rica, não existia nas casas das pessoas mais humildes, As bancas de jornal eram imensas, algumas pequeninas, mas havia muita coisa boa – e ruim – naquele ambiente que me fazia sonhar. Centenas de livrarias, de lojas de disco, mesmo em um país como o Brasil.
Hoje fui em uma banca dentro de uma livraria, e ambos estavam capengas, com grandes espaços nas prateleiras, algo deprimente, até porque os leitores não migraram para os fones espertos. Mas isto é matéria para outro texto.
Voltemos aos anos 70.
Quero que vejam meus relatos sobre minha vida de menino pobre não como uma bandeira de qualquer coisa, do self made man que melhora de vida, não pretendo fazer isto.
Entendam minhas referências à situação humilde daquela época apenas como uma referência de espaço, de onde eu estava inserido, de me situar, de como eram as coisas, não como exemplo de nada.
Se tivesse sido um menino rico, minhas histórias teriam como pano de fundo ambientes refinados, e é apenas isso.
Hoje, conversando com um amigo, cheguei à conclusão de que, na verdade, eu era rico, porque as maiores riquezas da vida são as experiências, e quantas experiências diferentes eu tive por conta de minha origem. Coisas que jamais teria vivenciado se tivesse vindo de outra condição social, por exemplo, a que estou hoje, benéfica, e agradeço muito a Deus por isto, mas limitadora em muitos aspectos. Momento filosófico.
Mas vamos lá.
Falar sobre Elton John já estava em meus planos há muito tempo, muito antes desse novo filme que está em cartaz, e que irei assistir tão logo consiga um tempinho.
O início de minha imersão no mundo da música, que continua até hoje, aos cinquenta e poucos anos de idade (e que me confere uma espécie de inesgotável juventude interna), começou justamente com um compacto de Eltoh John, cantando “Don’t go breaking my heart”, juntamente com a bela Kiki Dee. Grande dueto, naquela vitrola Sonatina com uma caixinha de som acoplada na própria tampa. O ano era 1976, com certeza um dos melhores anos de minha vida.
Aquela vitrolinha foi a chave para um mundo maravilhoso, que me trouxe imensas alegrias, que preenche minha vida e que me dá assunto para horas e horas de conversas, e de audições. Minha vida gira em torno da música, que faz a trilha sonora de quase todos os momentos em que estou acordado.
Ouvi naquela vitrolinha o antológico “Changes”, de Johnny Rivers, o “Estúpido Cúpido Internacional”, que levou o Brasil, em 1976, a uma onda revival do rock dos anos 50, lançaram muita coisa naquele ano.
A Editora Três lançou a coleção Rock Espetacular, e lá fiz minha primeira incursão mais elaborada no mundo do rock, apresentaram todas as vertentes e, claro, havia os compactos que acompanhavam a coleção. Em casa também tinha o compacto do ABBA que trazia “Fernando” de um lado, a preferida de Tia Rosária, que morava conosco na época. Nazareth dizendo que o amor machuca. LP dos Beatles, com “Michele”, outro disco coletânea internacional. E muitos discos de Elvis, que nosso amigo Aloísio emprestava.
Os dias daquela vitrolinha já estavam contados, e aí começou uma série de aparelhos de som que iam se aperfeiçoando de acordo com o dinheiro disponível. Junto com nossa primeira TV em cores em 1978. Aquilo equivalia ao que hoje seria aquele famoso smartphone modelo vinte e alguma coisa em 3D. Era algo realmente revolucionário naquela época.
Nos anos 70 a gente reunia os amigos para ouvir um disco, um LP, e cada faixa era tocada naqueles vinis (outro dia, um rapaz de 20 e poucos anos confessou, em uma reunião de família, que nunca tinha ouvido um vinil!).
Senti-me como um astronauta da Apolo 11, ansioso para falar sobre o lado escuro da Lua. Mas seria muito difícil, até porque meu 3 em 1 National (vinil, FM e toca cassete) está lá no meu escritório, prestes a merecer uma grande revisão e a tocar esses muitos vinis que tenho aqui em casa.
Mas Elton lançou outro compacto, com “I feel like a bullet in the gun of Robert Ford, uma bela canção que me fazia sentir em plena Los Angeles ou Londres.
Ouvi aqueles dois compactos do Elton centenas de vezes, misturados com Abba, Hollies, Elvis, Rod Stewart, Cat Stevens, Johnny Rivers, monstro sagrado, Beatles, Rita Coolidge. Bob Dylan descobri em 1978, e passei uns 15 anos ouvindo ele todo dia, tinha todos os Lps dele (hoje tenho todos os CDs), Entre 1977 e 1980 fiz um verdadeiro doutorado em música pop, comecei a colecionar um curso de inglês baseado na música pop, e eram 30 fascículos com 12 faixas cada, e na medida em que eu aprimorava meu inglês – sou autodidata, me formei em inglês por correspondência com 14 anos de idade, e sabia muita gramática, fazia centenas de versões e traduções – ia conhecendo a fundo aquele mundo musical. Escreverei também sobre isto, percebam que uma coisa leva à outra, e o importante é que todos nós temos essas histórias, e muita gente quer conhecer. Fica a dica.
Mas Elton estava sempre lançando coisa nova, e cada nova canção correspondia a uma fase diferente de minha vida.
“A single man”, com canções inesquecíveis, quem não se emocionou com “Song for Guy”?. “Victim of Love”, entrando na era disco. “All quiet on the western front”, fundo musical para uma paixão traumática, uma delas, em 1982. “Nikita” também, com George Michael nos vocais, em 1985. “Your song”, 1980 e 1996, “Rocket man”, que me leva ao mundo de aventuras que era o Gama em 1973.
Dezenas de outros hits.
Uma set list modesta incluirá uns 60 grandes sucessos de Elton.
Acompanhou minha infância, a descoberta do misterioso mundo da adolescência, as esperanças do tempo do Exército, as desilusões amorosas do início da fase adulta, a temperança da fase adulta, a paternidade, a eterna juventude que, felizmente, constatei que se inicia aos quarenta.
E lá está ele nas telas, nas entrevistas na TV comentando o filme sobre sua vida, como um grande amigo, que me acompanha através das décadas, trazendo alegria, felicidade, espantos com sua vida pessoal, seus dramas, seus altos e baixos existenciais, suas contradições, suas derrotas e vitórias.
Como todos nós.
Elton John não é apenas um dos maiores talentos da história da música pop, ao lado de Dylan, John Lenon, Paul, George e Ringo, Bruce Springsteen, os ícones da eterna Motown, Abba e tantos outros. Elvis é outro departamento, é único.
Elton tem o toque de midas do ofício, o toque do sucesso. É um autêntico gifted, nasce um artista assim a cada cem anos no nicho da música pop.
É um ser humano que reflete o grande mistério dessa vida, trazendo alento e força mesmo quando não tinha isso em seu repertório interior.
Como uma de suas baladas eternas. Alento em noites frias, quando se está com o coração apertado, como a dizer que outro dia chegará, mais uma vez (Venturini), nessa eterna vitrola dentro de nossa memória. VALDIR SILVA