A VIDA É AGORA (O TROVÃO)

A VIDA É AGORA (O TROVÃO)

Ultimamente tenho pensado muito na relatividade do tempo. Conforme tenho lido, para Deus não há o tempo como nós o sentimos.

E como nós o sentimos? O dia a dia muda nosso timing, todos dizem, estou ocupado, conversamos depois.

Nos divertimos depois.

Vivemos depois.

E fazemos isso com a mais absoluta naturalidade, como se estivéssemos inventando a pólvora, como se fossemos o suprassumo da execução de tarefas, confundindo nossa essência com aquelas tarefas que vão, ao fim e ao cabo e em última análise, nos afastar de pessoas e circunstâncias que constituem a chamada área fim de nossas vidas, caso não nos atentemos.

As crianças crescem.

Os jovens viram adultos.

As pessoas de meia idade envelhecem e morrem.

Caso tudo dê certo e essa ordem não seja alterada pelas pedras no meio do caminho.

“If tomorrow never comes”, já nos alertava Garth Brooks,  fiquemos alertas.

Não nos percamos em rotinas necessárias, porém alienantes.

O tempo.

Tão falado, tão enigmático, tão incompreensível, a delimitar nossa épica passagem pela Terra.

Outro dia perguntei para minha filha mais velha se ela se  lembrava de quando eu chegava de viagem, o carro cheio de processos, e ela descia a pé três andares pela escada, para correr e me abraçar e me dar as boas vindas após uma semana fora de casa.

Ela disse que não se lembrava, tinha apenas 5 anos de idade, e fiquei surpreso com isso, aqueles dias parecem que foram ontem para mim.

Pois eu me lembro de cada dia naquele simples apartamento no terceiro andar da Asa Norte, com vista magnífica para a Esplanada dos Ministérios e Lago Paranoá.

O escritório com muitos livros, discos e sonhos.

O quarto dela ao lado, um berço maciço de madeira, um palhacinho pendurado que fazia barulho.

Da janela de meu escritório eu a acompanhava com a vista, no parquinho lá embaixo, junto com a mãe.

Ouvia seu choro e ficava preocupado quando ela dava birra e saia correndo pela calçada.

Ali também ela usou seu primeiro uniforme da escolinha, e já dava sinais de sua grande inteligência.

Semana passada ela mandou-me algumas fotos de nosso antigo bloco cor de ferrugem, do parquinho onde foram tiradas aquelas fotos que estão em vários álbuns.

Perguntou-me se eu me lembrava de lá.

Querida filha, aquele prédio está dentro de meu coração, e foi onde vivi momentos muito felizes de minha vida, quando sua irmã ainda não tinha nascido.

Ela nasceu quando já estávamos no prédio do outro lado da rua, já com elevador, maior, talvez para acomodar nossos sonhos e expectativas, e o maior sonho que foi concretizado no novo apartamento foi o nascimento de sua irmã, um milagre que acompanhamos segundo a segundo durante aquele ano, com muita oração.

Você talvez não se lembre, mas ouvimos “Equilíbrio Distante” em meu Monza durante uns dois anos naquele período, faixa a faixa, não entendendo nada daquelas letras, daquele idioma, que nos tocava o coração.

Por isso que resolvi aprender italiano, claro que a Laura foi um grande incentivo também.

E veja sua irmã também aprendendo italiano, e também gostando daqueles cantores e cantoras que fazem o melhor pop do mundo.

Aprenda italiano também, vamos nos divertir muito.

Mas uma das faixas que mais ouvia era “La vita è adesso”, Renato Russo marcando mais uma vez nossa vida.

Você ficava calada no banco de trás do Monza, atenta, e no final da música falava, “quero mais a música do trovão”.

Aquele trovão foi uma solução genial de Carlos Trilha, e aquele coral também nos tocava a alma.

Minha querida filha, nesta data tão especial, seu aniversário, ouça “La vita è adesso”, não no banco de trás, mas dirigindo seu carro e sua vida, e agradeça a Deus por tudo.

O tempo? É um milagre, uma dádiva. Com amor. Seu pai.

Potássio. Potássio. Potássio. VALDIR SILVA.

Deixe um comentário