CLINT – Já vou logo adiantando: a sensibilidade é uma boa qualidade. O que quer que signifique sensibilidade. Geralmente associam essa qualidade a algo romântico, a amores impossíveis, a choros à meia-noite em ambientes mal iluminados. A desequilíbrio. Dizem, você é muito sensível, como se disessem que você padece de algo que o torna frágil, quebradiço. Desequilibrado. Não caia neste mito. Acho mesmo que a capacidade de ler um olhar, de sentir as vibrações de um ambiente, de não se conformar com relacionamentos medíocres de qualquer nível é, antes de tudo, uma dádiva para perceber e evitar os rolos compressores da vida. A boa e má notícia é que a sensibilidade vai te criar anticorpos, que são desenvolvidos somente depois que somos contaminados por vírus de várias espécies que são trazidos por aquele redemoinho a que chamamos de vida, e sempre seremos atingidos em cheio. Em outras palavras: a sensibilidade vai te ajudar a não cair mais em situações que somente vão trazer más recordações, angústias e diminuir sua capacidade de confiança na raça humana. Quem é sensível, se imuniza. Quem não é, vai dando suas cabeçadas por aí. Esta a diferença básica. Mas existem pessoas que não sentem a dor das cabeçadas, ou sentem muito pouco. Fiquem atentos. Mas a intensidade e administração da dor é outra questão, Agora vou ser um pouco contundente, perdoem-me, mas preciso alertar que um mínimo de sensibilidade é que vai fazer vocês exigirem o que lhes é de direito, como pessoas que merecem uma, digamos, dignidade existencial. O que é isto? É nós não aceitarmos qualquer sacanagem como coisa normal. 14 Bis sempre lírico e sábio na maior parte do tempo, na melhor tradição dos escribas mineiros. Esta a cesta básica da sensibilidade. Mais bons dias, menos caras feias nos elevadores. Mais reciprocidade. Presentes com carinho e atenção. Fora parabéns padrão e digitalizados em série. E por que não um presente barato em preço mas cheio de significados. E isto sem falar na repulsa à fofoca, às línguas ferinas, aos eternos pessimistas de baixo astral. Aos invejosos. Os que dizem que seus planos não vão dar certo, com aqueles ares cínicos dos “espertos” que sempre querem levar vantagem em tudo, certo? Admito. Mostrei e pus para tocar a magnífica “Drive all night”, de Bruce Springsteen, em uma noite de sexta-feira como esta, para uma senhora, cujo nome não direi nem sob hipnose, que não merecia (veria depois) sequer colocar as mãos naquele vinil que é umas das obrar primas do rock and roll. “The river”. Mas fiquei imunizado.Nos anos seguintes tive mais cuidados aos me expor, e aquela canção cada vez mais me emocionou, 30 e poucos anos de audição. Experiências boas e dolorosas todos tivemos, temos e teremos. A sensibilidade vai te ajudar a navegar nesse mar revolto. A pessoa sensível é imune a esterótipos. Ela apenas é. Geralmente é introspectiva, humor sutil, observadora, mas não há regras. Fiquem atentos de novo Porque virou cult dizer-se sensível, ler os livros sensíveis da moda, ou apenas as orelhas salvadoras. Mas o ser sensível é melhor do que os que não são? Não diria isto. Muitos sensíveis pagariam milhões para eliminarem pelo menos metade de sua sensibilidade, tão dolrida e brutal às vezes. Mas minha vida com certeza sempre ficou mais alegre, mais rica, mais colorida, ao lado de pessoas sensíveis. Falamos o mesmo idioma. Esta a questão. Falar e ser ouvido. Ser reabastecido. Ouvir a abastecer também. Este o sentido da vida, afinal. Viver e conviver e trocar impressões, e ver um sentido nisto tudo. Sentido que, lamento dizer, não está nesses símbolos de status e poder que tanto conhecemos. Não, não sou um asceta, gosto desses símbolos também, e os busco, mas vejo também além disto, vejo sua natureza acessória. Sim, sou um cara sensível. Continuo me imunizando todo dia, vejo e sinto com intensidade, o que, de todo modo, me permite colocar, em linhas sinuosas, o que me vai pela mente e pelo coração. Às vezes é uma benção. Acho que sempre. Porque esta é a minha natureza, e as dores inevitáveis são consequencias naturais disto. Minha sensibilidade tem sido colocada à prova ultimamente. E de forma paradoxal ela tem me ajudado a equacionar fatos muito objetivos que poderiam me levar à lona. Mergulho nos acordes, nas frases, nas boas lembranças, nas promessas embutidas no domingo à noite. Sensibilidade é força. É mutação. É alicerce. É matemática. Pura. O avião sacolejava na semana passada. Era a Cordilheira dos Andes, os ventos subiam implacáveis. Tempo quente e neve no cume das montanhas. Impressionante. Terminava as 60 crônicas escolhidas de Rubem Braga no meu novo aparato, o Kindle. Levei 20 livros naquela impressionante maquininha. De Richard Evans a Machado de Assis, de Ken Follet a Simon Sebag Montefiore, em seu monumental trabalho sobre Jerusalém, que conheci em 2017. E também a Bíblia. Tudo no bolso de meu casaco Mas Rubem Braga contava um episódio que protagonizou na Segunda Guerra, como correspondente (estou lendo as crônicas da guerra na Itália, dele), e fez algo que deixou seus leitores em suspenso (e suspense): contava um episódio rocambolesco em Casablanca, com lances que fariam Humphrey Bogart ficar embasbacado, e não terminou o texto! Remeteu a conclusão para um texto da semana seguinte, e novamente não entregou a dita cuja. Para minha felicidade, a coletânea tinha as três crônicas, então soube o final. Comigo, agora, ocorre algo semelhante. Não fiquem chateados comigo, mas fiz um preâmbulo que escapou às minhas possibilidades de tempo nesta sexta-feira chuvosa, quase meia-noite. Sim, o Clint do título é o fenomenal Clint Eastwood. O que tem a ver o astro de “Magnum 44″ e “Os imperdoáveis”, ex prefeito de Carmel, com um texto sobre sensibilidade? Conto semana que vem. Com nova trilha sonora. Talvez jazz. VALDIR SILVA https://youtu.be/S44phOxC1nA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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