SETE DE SETEMBRO EIXÃO SUL (INDEPENDENCE DAY)

                        SETE DE SETEMBRO EIXÃO SUL                         

                             “Eu queria poder voltar no tempo e passar pelo menos um dia de novo  na Cerimonial, com a cabeça de hoje”, disse há algum tempo atrás um irmão veterano.

                               Essa ideia me passa pela cabeça em relação a inúmeros momentos de minha vida.

                               A volta no tempo, nem que seja por alguns momentos, para dizer aquela palavra especial, para dar aquele abraço, para explicar algo mal compreendido.         E também para reagir a alguma situação que não tv emos condições de confrontar no momento, alguma ofensa, uma palavra venenosa.

                               Mas aqui a sabedoria aconselha deixar seguir, se formos ver bem de perto, aqueles ofensores hoje em dia seriam dignos de piedade em sua insignificância. Então a ideia básica seria a possibilidade de reviver momentos realmente especiais. Voltarei a este tema, mas hoje falarei sobre um dia absolutamente inesquecível e único, o desfile de 07 de Setembro com minha Companhia, a Cerimonial.

                               A mística do Batalhão da Guarda Presidencial é que completamos quase dois séculos de criação sem qualquer vinculação política com o ocupante da Presidência da República, presidentes de todos os espectros já passaram por lá, e o BGP sempre cumpriu sua missão com a mesma vibração e comprometimento.

                                O que havia era muita vibração e consciência de nosso papel no corpo do Exército. Muito profissionalismo.

                               Mas hoje é um 07 de setembro totalmente diferente, Sempre acordávamos cedo para ver o desfile na TV, e os aviões fazendo um barulho familiar, voando baixo por cima dos prédios do Sudoeste, e saíamos para a varanda para vê-los indo em direção ao desfile.

                               Este ano não teve desfile, mais um efeito desta terrível pandemia que assola o Brasil e o mundo.

                               Acho que todos nós da Cerimonial lembramos daquele dia como se fosse hoje, aliás, isto foi dito ontem por um de nossos irmãos.

                               Você é incorporado para o serviço militar obrigatório, e tem medo, não tem a menor ideia de como vai passar por tudo aquilo. Mas com o decorrer dos meses vai se dando conta de que servir no BGP, na Cerimonial, não é uma experiência  qualquer.

                               Todos os dias eram realmente especiais, diferentes, e tento relatar algumas coisas nessas memórias da caserna,  aqui neste espaço, com saudades e reverência. A   comemoração das datas cívicas nacionais era uma de nossas atividades básicas junto ao cerimonial da Presidência da República, e o Desfile de 07 de Setembro era uma destas datas.

                               Na véspera do desfile ficamos   no quartel, e havia um clima festivo. A mística do 07 de setembro se fazia presente, e não havia uma ordem unida diferente a ser executada, faríamos o que sabíamos fazer muito bem, que era marchar com a tradição da Cerimonial em nossos ombros, em um contato mais próximo com a população.

                               A alvorada foi às   5 da manhã, aproximadamente. Fomos para o rancho, já com parte da farda de gala, voltamos, terminamos de nos paramentar, uniforme com o porta baionetas, pegamos nosso fuzil Mauser  com as bandoleiras   brancas e  entramos em forma.  Orientações finais do Capitão Castro.

                               Muitos ônibus no pátio, o desfile era monumental.

                               Todas as Companhias desfilavam, menos quem estava de serviço nas guardas do quartel e  guardas externas. O desfile era imponente,  todos os quartéis representados, os maiores eram o BGP, PE e RCG, a Cavalaria, que encerrava o desfile.

                               Como o efetivo era realmente grande, os desfiles eram realizados no Eixão.

                               A concentração era na altura da SQS 210, o palanque presidencial era na SQS 203, e o término do desfile era em frente à rodoviária, onde hoje fica a Biblioteca Nacional.

                               Um percurso de aproximadamente 7km, em cadência forte.

                               Chegamos na concentração para o desfile, no Eixão. Esperamos mais de uma hora o início, o Presidente da República surgiu   no Rolls Royce Presidencial, a Cerimonial obedeceu aos comandos da corneta, sentido, apresentar armas, olhar à esquerda, acompanhar o Presidente com o olhar, olhar frente.

                               Finalmente, ordinário marche.

                               O desfile no Eixão era muito mais aberto, milhares de pessoas se aglomeravam  ao lado da pista, e isto durante todo o trajeto.

                               Nossa  linha de visão era limitada, e depois de algum tempo nós não conseguíamos mais ouvir o bumbo, que marcava  a cadência.

                               O Sargento Marcon gritou “Esquece a…  do bumbo, vamos fazer nossa própria cadência”. 

                               E ali, senhoras e senhores, para nós começou um desfile épico. Era o desfile oficial de 07 de setembro, o maior do Brasil, mas naquele espaço  de 120  homens era a Cerimonial marcando a ferro e fogo nossas histórias.                             

                               Fazia muito calor, tempo seco, como hoje. A barretina era maior, pesada. O sapato começava a machucar, e nada disso impedia que nós fizéssemos uma das melhores cadências de nossas vidas.

                               Cruzar armas, gritava o sargento.

                               E a população vibrava, e afunilava a pista. A PE quase  não conseguia conter.

                               Minhas polainas caíram, ficaram pelo caminho, fazia parte.

                               Passamos em frente ao palanque presidencial. Olhar à direita, olhar frente, seguir em frente. Banco Central, Banco do Brasil, descida da rodoviária.

                               Começamos a cantar o Hino do Batalhão da Guarda Presidencial até os ônibus.

                               Ontem vi uma foto nossa em um dos ônibus que nos levou de  volta ao quartel, e que foi seguido de carro por algumas admiradoras (acreditem, nós tínhamos essas admiradoras)  até a porta do quartel.

                               Estávamos eufóricos, meio passados, levou algum tempo para eu realmente internalizar o que foi aquela cerimônia.

                               Aquela sensação, naquele desfile, foi única, e jamais vai se repetir.

                               Aquele é um dia que será lembrado para sempre em nossas vidas.

                               O local dos  desfiles de 07 de setembro, em Brasília, mudou, agora é no Eixo Monumental, a distância a ser percorrida é bem menor. Apenas uma fração das Unidades desfila, do BGP, apenas uma Companhia, que faz evoluções da Ordem Unida Sem Comando em frente ao palanque presidencial.

                               Tem sido assim há alguns anos.

                               Noite passada passei por ali, nenhum palanque, nenhuma arquibancada, o desfile não sewria realizado este ano, como falei acima.

                               Sensação diferente, de perplexidade, mas também de esperança no futuro  pós-pandemia.

                               Estamos, com tudo isso, esperando o melhor, fazendo algumas coisas que podem nos preservar e também a nossos filhos e pessoas queridas.

                               Esqueça o bumbo.

                               Nossa cadência é forte, venceremos isso como fizemos tantas e tantas vezes.

                               Independência. Vida. VALDIR SILVA

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