O mercado de Manaus é algo impressionante, cheiros e cores inusitados, produtos e ervas que prometem soluções milagrosas. Sim, eu trouxe comigo duas daquelas garrafas pet com ervas de todos os tipos dentro, que prometem manter ou restaurar as forças nesses tempos bicudos. Estão ali na estante até hoje, espero que não percam a validade. Comprei para fazer uma brincadeira com os amigos, mas o tempo foi passando e elas intactas.
Andamos por ali, pelo Centro, chegamos até o Teatro Amazonas, arquitetura renascentista, lembrando a pujança do ciclo da borracha. Leio aqui que a cúpula é formada por 36 mil peças nas cores da bandeira brasileira, importadas da França, com porta de aço vinda da Escócia e os lustres e mármores importados da Itália. Assistimos uma cantata de Natal lá, naquela mesma noite, espetáculo deslumbrante.
Em frente ao teatro há uma praça animada, um restaurante típico ao lado, com uma fartura impressionante. A riqueza do Amazonas está presente em todos os detalhes, no ar, na presença de inúmeros estrangeiros conhecendo e prospectando a Região. Uma lanchonete portuguesa a remeter a minhas origens lusitanas desconhecidas. Nos meses seguintes continuei a conhecer um pouco mais daquela região, os botos, a vitória régia, a realidade indígena, os rios imensos. Muita coisa ficou sem eu conhecer, mas claro que voltarei lá para continuar a conhecer aquela imensidão.
Chegamos no vôo da madrugada no dia anterior, e um sotaque acolhedor e generoso já nos recepcionava no hotel. Com certeza algumas das pessoas mais generosas do Brasil estão lá no Amazonas, em Manaus. A impressão inicial se confirmou nos meses seguintes, nas ruas, nos táxis, nos shoppings centers imensos e extremamente bem abastecidos de equipamentos eletrônico, fabricados ali mesmo no Polo Industrial. E em uma livraria onde encontrei um livro raríssimo sobre a história das frutas e seu impacto na vida e na economia mundial.
Mas meu coração estava apreensivo, naquele mesmo dia da chegada minha mãe iria fazer uma operação. Três meses internada, e aquela seria mais uma intervenção. Ouvia detalhe sobre meu local de trabalho nos próximos meses, mas a mente estava longe, no Planalto Central. O resultado da operação me foi repassado de noite, nós no Manauara, local imenso e o único que podia nos acolher naquela noite, no meio de livros, Cds e café,
Deu tudo certo na operação, respirei aliviado, ficaria na cidade até o dia de Natal, que passaria em casa.
Aquele ambiente absolutamente diferente de minha realidade, a ponte sobre o Rio Negro, a Ponta Negra, a exuberância da região, as pessoas extremamente afáveis, a experiência de morar em diversos apart hotéis naquele período, a exploração diária pelas ruas, as histórias que ouvia das pessoas, a Igreja Batista que lá frequentei, tudo isso me sustentou naquela fase tão difícil de minha vida. No período de internação de minha mãe eu lia para ela sempre alguns trechos da Bíblia, dois salmos, e também colocava para tocar um hino que ouvíamos nos anos 60 de minha infância, em São Paulo. Três semanas se passaram, minha mãe faleceu, voltei para o trabalho em Manaus, onde ficaria até o início de minhas férias, no início de fevereiro. Viagem marcada para o Japão, outro mundo, também impressionante.
Início dos trabalhos, ambiente solene, e pediram para eu ler um texto em oração, rogando proteção para nossas atividades. Passaram o texto para mim, e então vi que era o mesmo texto que eu lia para minha mãe nos últimos três meses no hospital. Fiquei extremamente emocionado, mesmo perplexo.
Após minha saída da cidade, veio a pandemia, Manaus sofreu muito, muitas mortes, muitas tragédias.
Agora no fim de 2021 a cidade está bem melhor, pandemia quase sob com controle. Os cuidados com vacinação, máscaras, álcool gel, devem permanecer por muito mais tempo, como em todas as cidades do país. Fiquei muito triste e preocupado com a situação dos manauaras, mas a vida foi seguindo, a vacina chegou, mais batalhas sendo vencidas
Mas há algo maior, espiritual, em Manaus, que faz com que tudo lá flua de forma quase mística, um outro timing, um outro tempo, ao sabor das chuvas torrenciais e calor.
É o coração amazônico, que me acolheu e que me faz refletir sobre o eterno fluxo da vida, um encontro das águas existenciais que nos sacodem, nos revitalizam e nos fazem pessoas melhores. VALDIR SILVA