PÉRGOLA,Cartas, Primeiro Capítulo, (Letters to young soldiers)

                               PÉRGOLA (Cartas, Primeiro Capítulo).

 

                                        Dois anos atrás voltamos lá.

 

                                   Após 38 anos,  aproximadamente dez Granadeiros da Cerimonial voltavam à Companhia, no aniversário do Batalhão da Guarda Presidencial.

 

                                  Tive uma certa decepção ao ver como a limpeza, a disposição do alojamento e vários outros itens estavam diferentes de nosso tempo, em que o rigor era bem maior. Já abordei isso em outras crônicas, e não o farei de novo.  Apenas para ilustrar, nosso banheiro e vestiário eram mais limpos do que o do aeroporto, e quando banheiro de aeroporto era referência de alguma coisa. Hoje em dia estão deploráveis, viajei mês passado e o banheiro do aeroporto de Brasília estava fétido, entupido, largado. Mas nosso banheiro era impecável, piso encerado, realmente era algo totalmente diferente de hoje em dia. Vi alguns chuveiros elétricos, quentes, e me perguntei o que aconteceu para isso ocorrer em um quartel de Infantaria.

                                  Mas era dia de festa e de lembranças, e ficamos muito emocionados porque nosso antigo Comandante, o mítico, o lendário Capitão Castro  estava lá, para receber  uma homenagem nossa, providenciada pelos Sargentos Marcon, nosso sargento do PELOPES,  e Barbosa, além do Bisol e do Samartano, eternos pelopeiros.

                                 O Capitão Castro era extremamente rigoroso, responsável pela incrível marcialidade que fazia com que a gente vibrasse cada vez que colocava aquela farda de gala, e que dizia quando voltávamos das cerimônias, foi bom, mas podia ser melhor, e que  merecerá uma crônica à parte.  Entramos em forma, como lembrança de nossos tempos épicos, com bom humor e brincando, fazendo piadas um com o outro, mas aquela marcialidade era inconfundível, mesmo com quilos e histórias incríveis a mais em nossas vidas. Éramos outras pessoas, mas aquela vibração ainda estava lá, intacta.  Um reencontro com nós mesmos, nossas fraquezas iniciais e a força surgindo dia a dia, e a consciência de como aquele período nos marcou. Isso foi dito pelo Sargento Marcon, provavelmente o sargento mais vibrador e inspirador de nossa geração. Pelopeiro raiz, que fez um pequeno discurso. Bisol  embargou a voz ao entregar uma placa ao Capitão Castro, hoje Coronel da reserva. O capitão agradeceu também com voz embargada.

                                  Estávamos na  pérgola da Cerimonial, mais uma vez. Inacreditável.

,                            A pérgola é como se fosse o pilotis de um bloco em Brasília, o espaço que testemunhou nossas inacreditáveis mudanças como pessoas em nosso período no Exército. Lá recebemos as primeiras instruções, ouvimos o apito inclemente para agilizar nossas atividades, ouvimos o amedrontador “bem-vindo ao inferno verde” da boca de antigões durões,  ficamos impressionados ao perceber como aquele mundo era tão diferente da vida civil, os comandos de voz, os rituais de apresentação, a hierarquia absoluta e respeitosa.  Lá aprendemos os toques de corneta, conhecemos a fundo as armas que seriam nossas companheiras inseparáveis, como o FAL, o fuzil automático leve que ficaria praticamente o tempo todo em nossos ombros, em cerimônias, infindáveis acampamentos com o PELOPES e as guardas nos palácios,  e o FO, fuzil histórico Mauser, utilizado em cerimônias.

                                   A frente dos pelotões dava para a pérgola, então  boa parte do tempo ficávamos lá, em atividades separadas. Mas as formaturas diárias, de manhã e de tarde,  com   a Companhia   completa, ocorriam lá.   

                                   Mas a Companhia era antes de tudo a casa da maior parte dos soldados, a quase totalidade vinha de outros Estados, especialmente do Sul, então eles não tinham como visitar a família  nos fins de semana. Moravam e conviviam lá, o tempo todo.

                                Claro que a comunicação com as famílias era difícil, celular e internet não apareciam sequer na ficção científica. O que tinha era um orelhão ali na pracinha em frente à barbearia, e as chamadas interurbanas valiam ouro.

                                     Então aquela pérgola presenciava algo realmente mágico às sextas-feiras: eram entregues as cartas que vinham para  nossos irmãos, em envelopes de todos os tipos, a maioria com aquelas tarjas verdes e amarelas. Nós em forma, gritavam o número e o soldado gritava o próprio nome,  saia de forma e pegava sua carta, como se fosse um tesouro, notícias de um mundo distante que não era mais o dele. As cartas têm esse poder, ainda mais naquele tempo e naquelas circunstâncias.

                                        Mas o que ficou claro para mim, nesses anos todos, é o poder imenso de uma palavra escrita à mão. Portas de entrada para mundos acolhedores. Papéis com as digitais, o suor e às vezes as lágrimas de quem escreveu.

                                           Esta semana, conversando com um irmão Granadeiro, falamos como seria estar lá de novo, na Cerimonial, com a cabeça que temos hoje, sabendo da importância daquilo tudo, e como estaríamos impregnados com  aquelas fardas, toques de corneta e lembranças de nossos tempos de BGP.

 

                                             Sexta-feira, Companhia em forma, soldados, cabos, sargentos e  tenentes perfilados, o capitão dando suas orientações de fim de semana. Comportem-se nas ruas, cuidem da farda de passeio, o clima é seco em Brasília, propício a fraturas, tenham atenção.

                                            Hora de entrega das cartas.  

 

                                            Como seria bom mandar uma carta de hoje para nós daquela época, jovens infantes. Inclusive para nós, os cinco candangos da Cerimonial.

                                            Envelopes com bordas verde-amarelas, cartas escritas à mão, com alguns borrões. Sairíamos de forma, cada um com seu tesouro nas mãos, abrindo aqueles envelopes com um misto de perplexidade e excitação. Uma folha apenas, dois parágrafos.

 

                                          E diriam mais ou menos assim, vivam intensamente esta fase, olhem para seus irmãos de farda com um olhar de compreensão e afeto. 

                                         Vocês estão dando seu máximo, criando lembranças inesquecíveis que as pessoas que não   usaram estas fardas jamais entenderão, nem mesmo vocês agora.

 

                                           Sigam na  vida, altivos, com fé, esperança e força. Alguns ficarão pelo caminho, como é a lei da vida, mas serão pranteados e reverenciados por suas famílias e também  por nós.  

 

                                        A dor por vezes parecerá que  não vai passar, as perdas definitivas e a solidão em madrugadas silenciosas. E aí colocarão  no youtube (o que é isso? Saberão isso no tempo certo)  um vídeo de nossa  Companhia, como faço agora com um vídeo da Ordem Unida sem Comando da Cerimonial de 1988, que já assisti inúmeras vezes, nossos uniformes e cadências originais, e verão que a noção de tempo e espaço também é relativa, estaremos aqui com vocês e lá no futuro,  em vidas que estão sendo moldadas aí, exatamente, nessa querida pérgola.

                                           Barriga para dentro, peito para fora.

 

                                           Sempre estarão juntos, mesmo que em memória.

 

                                          Deus sempre estará com vocês, eternos Granadeiros. VALDIR SILVA.

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