EIXO MONUMENTAL I (Quase sem querer/ Almost unintentionally)

EIXO MONUMENTAL I (Quase sem querer).

 

                         Noite  passada estava voltando para casa e, olhando para a direita, vi o nome daquele estádio em seu original, agora nome de um mercado. O estádio agora é internacional, portentoso, gigante. Tenho uma ou duas histórias de lá.

 

                                Conheci Legião Urbana em 1985, eu era sócio de um disco clube, que funcionava igual às locadoras de vídeo. Naquele período eu ouvi centenas de discos, pagando uma módica mensalidade. Ideia genial,  e os discos eram  caros e o salário era curto. Cheguei lá certa tarde e o dono, protótipo do empreendedor e que me vendeu, anos depois, um incrível sistema de som que está ali naquele quartinho ao lado, esperando para ser reativado, estava lá, e disse, gostou, então leva. Levei. O som era cru, diferente, era o início do Rock Brasil.

                                Mas naquela noite de 08 de junho de 1988,  as arquibancadas do velho estádio estavam tremendo, pessoas correndo. Era o último show do Legião Urbana em Brasília, estávamos lá.

 

                                  Aquele cantor era diferente, as letras também. Baixo, bateria, guitarra e voz. O básico e muita paixão. Não podia imaginar que aquela banda, aquele cantor, iriam me acompanhar vida afora, como Elvis, Abba, Laura Pausini,  Bruce Springsteeen, Elton John, Johnny Rivers, que estão a meu lado quase todo dia, há décadas. Se pararmos para pensar um pouco, e aqui já entrando um pouco nos domínios da psicanálise, nossa vida gira em torno das lembranças e sua influência no que fazemos no presente, e que vai direcionar, certamente, nosso futuro.

                                Tempo e  espaço são relativos, e não é por acaso que a arte foca muito nesse mistério. Ontem assisti a um filme, mais um, com essa temática, um filme  com a estética noir,  estrelado por Hugh Jackman e  Rebeca Ferguson, filme excelente pelo que não é, um thriller policial ou de aventura; não, não é nada disso, é uma imersão em nós mesmos em busca de nossos melhores momentos.

                                  Então aquele show do Legião Urbana está com certeza em um lugar nos 1000 melhores momentos de minha vida (que bom que tenha tido tantos momentos bons, e a contagem continua…). Não pelo show em si, que acabou com apenas algumas músicas, mas pela mágica que cercava tudo aquilo, a maior banda do Brasil , que falava nossa língua, estava ali , em uma fusão de sonhos e expectativas. Havia mesmo uma energia diferente no ar, catalisada por Renato Russo, Renato Rocha, Dado e Bonfá.

                                  O primeiro disco do Legião Urbana foi uma comoção nacional, com “Será”, “Ainda é cedo”, “Geração Coca-Cola”    e outros hits.  Minha vida seguia em linhas sinuosas, a bordo de meu primeiro carro, uma Brasília 76 vermelha  comprada de segunda mão, e que para mim era uma autêntica Mercedes. Falarei dela em outro texto.

 

 

                                   Logo a seguir, e após um colossal coração partido, fui no shopping com uma nova namorada e vi  exposto na vitrine da discoteca (se você não sabe o que é uma loja de discos, corra para a internet e faça uma pesquisa completa e pense que era como uma fábrica de sonhos musicais, quando não havia nada disso que hoje em dia nos distrai, como internet, streaming, redes sociais, etc. ) o LP “Dois” do Legião.

                                 Comprei e sentei em um banco lá em frente, com a, digamos, Laura (nome fictício), abri o encarte e fui lendo as letras, ao mesmo tempo em que lhe dava o primeiro beijo.

                                  Se o primeiro disco da Legião foi uma comoção, o “Dois”  foi um terremoto, inúmeros hits que marcaram gerações e que ainda nos remetem para aquele ano de 1986.

 

 

Eu e o Brasil inteiro ouvíamos aquele disco até gastar o vinil, Tempo Perdido, Acrilic on Canvas, Eduardo e Mônica, Quase sem querer, Índios, Fábrica, Andrea Doria, Plantas Embaixo do Aquário, Central do Brasil e outros.

 

                                   Era uma nova arte, uma nova estética, um rock and roll que falava aos corações .  

                                      A partir daí, todos sabemos a história.

 

 

                                       Uma vizinha que gostava de mim, sorriso luminoso, cativante, sempre que eu chegava em casa, colocava alto “Quase sem querer”, que era a música que eu mais ouvia naqueles  dois meses depois daquela compra, junto com “Drive all night”, de Bruce Springsteeen.

                                        Um dia ela se foi, mas o disco continuava a cumprir sua missão.

                                      Algum tempo o depois, eu era um humilde servidor público, morava com minha mãe em um pequeno apartamento alugado, começando a entender o mundo dos relacionamentos , estudava dia e noite ao som de música,  fazia Direito, corria pelas ruas,   mantinha  minha sanidade física e mental, já namorava a mãe de minha filhas, o Brasil esperava ansiosamente sua nova Constituição, e certo dia vi o anúncio daquele show.

 

                            Brasília respirava aquilo.

 

Chegamos lá, nas arquibancadas, que de repente começaram a tremer. Renato Russo estava muito bravo, o som distante, começou um grande tumulto. Saímos rápido dali, e vi nos jornais do dia seguinte o que tinha ocorrido lá.

                       Na Asa Sul há um restaurante que serve um excelente picadinho, e sempre vou lá aos fins de semana.

                      Já sabem que vou pedir o tal picadinho. Fica na “esquina” da quadra em que morava Renato Russo.

Às vezes entro na quadra, sozinho, dou uma volta, para e olho para o prédio em que ele morava.

Fúria, amor, busca, desapontamento, perplexidade, esperança, luz na escuridão, que tenta sempre nos envolver.

VALDIR SILVA

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