CORRENDO PELA VIDA (Running for life)

                CORRENDO PELA  VIDA / RUNNING FOR  LIFE

              No mundo das corridas, e não somente no mundo das Maratonas,   é preciso muita humildade.

              Saber que mesmo que você faça uma Maratona muito veloz, como já fiz (minha meta atual será uma Maratona sub 4 e, quem sabe algum dia, não garanto, correr a Maratona de Boston, que exige um índice para inscrição de 3:30, e isto na minha idade), se você ficar parado por um ou dois meses, ficará quase tão sedentário como o cara que nunca chegou a correr 5km na vida.

                É o  que aconteceu comigo, a pandemia, o fechamento do Parque da Cidade e das academias, as restrições e as adaptações à pandemia me fizeram ganhar peso e perder boa parte do condicionamento físico.

            E agora estamos literalmente  correndo por nossas vidas neste tempo de pandemia, e esta velha companheira de décadas de repente virou um dos remédios.

                Como eu já falei algumas vezes aqui, comecei a correr em 1983, com muitos altos e baixos. Os primeiros 5km, os primeiros 10 km, a primeira Meia Maratona, a primeira Maratona.

                  A corrida desde aquela época tem sido um refúgio, uma fonte inesgotável de experiências idílicas, inimagináveis para quem nunca calçou um tênis e saiu por aí, descobrindo o mundo e principalmente se conhecendo.

                 Acolheu-me  nos momentos mais graves e dolorosos da vida de um homem, na expectativa de conseguir a aprovação no primeiro emprego após o Exército, nas diversas fases conjugais, as preocupações da paternidade, os desafios crescentes do trabalho, as mudanças de cidade, o falecimento de minha mãe, a solidão desses momentos.                 Na vida, caros leitores, existirão momentos em que você será colocado à prova, em que cada átomo de seu corpo será testado, e se você não encontrar uma fonte de força, de equilíbrio, será realmente muito difícil.

                      A mente, o corpo e o espírito precisam estar afiados, mas  raramente estão, então é sua luta o que conta, sua atitude. Sobre a mente e o espírito falarei em outra oportunidade, mas sem um corpo em razoáveis condições, sem esse hardware, será uma missão quase impossível.

                        Este é mais um daqueles momentos limite.

                    Muitos cuidados para evitar a contaminação, álcool gel em todos os lugares, distanciamento social necessário.

                 O contato físico  está proibido, mas naquelas pistas de corrida vejo a distâncias seguras pessoas que vêm e vão, eu de máscara, retiro e coloco quando cruzo com alguém, a maioria de máscara, vejo  patos, sinto a grama recém cortada, o corpo pesado lentamente se livrando não apenas de gramas, mas de camadas de preocupações e angústias.  A sensação é exatamente esta, é como se você estivesse limando de seu corpo  e sua mente   camadas de pesos que, definitivamente, não precisa carregar.

                  Aos 50 minutos, como lembra Haruki Murakami,    entro em uma espécie de túnel, o corpo fica mais solto,  respiro fundo, a  música dita o ritmo, A-Há, Moody Blues, Laura Pausini, Eros Ramazzotti,  George Harrison  e muitos outros me acompanham, Columbia, do Oasis de novo.

                   Uma nuvem negra  despeja toneladas de chuva, e continuo a correr, nada de parar sob a marquise, sigo em frente, o tênis encharcado, o I Pod no bolso, o GPS envolto em um plástico no bolso do calção, o corpo molhado porém aquecido, uma euforia toma conta de mim, e a nuvem passa e logo a seguir o sol aparece novamente.

                 A sensação de liberdade de estar completamente molhado, correndo na chuva, é algo que a maioria de nós somente experimentou na infância. A corrida cria um elo entre tempo e espaço, lá é somente você e sua história,  seus erros, seus acertos e suas esperanças.

               1984. A médica  analisa meus exames,  diz que está tudo ótimo, os pulmões estão bem ramificados, pulmões de atleta.

                Vou te receitar apenas uma vitamina com zinco, o zinco não é produzido   pelo corpo. Até hoje tomo aquela vitamina.

                  Ela me pergunta: por que você vai correr uma Maratona, são 42km195m.

                  Trinta e poucos anos após, muitas Maratonas no currículo, ainda não tenho a resposta para aquela pergunta. Acho que é porque aqueles quilômetros estão lá, dando suporte para a vida e fazendo com que eu me sinta invulnerável, o que definitivamente não sou. Mas é um caminho, um norte ali, sempre a minha disposição em momentos de crise, como agora.

                 Não precisa ser uma Maratona. Hoje corri apenas 6 km, e uma menina me ultrapassou, eu forcei várias vezes, não consegui acompanhar, e ela estava realmente lenta.

                   Dei um sorriso, lembrei de comentários que ouvia quando voava pelas ruas do Cruzeiro, quando estava realmente em forma, muito veloz, até eu mesmo me surpreendia. Agradeci por estar vivo, mais um recomeço.                 Uma família estava reunida no estacionamento, mantendo distanciamento, várias crianças e adultos, de máscara.
               Entrei no carro, coloquei John Mayer em alto volume e voltei para casa, renovado.

          Fazia sol, e a chuva voltará, e eu correrei de novo na chuva, no sol, de noite, de madrugada,  nos infindáveis longões de fim de semana, em Maratonas mundo afora, e agradecerei a Deus por estar me dando vida e força. Oro por isto nesta terrível pandemia. Dedicado a todos  os que correm e lutam pela vida, no  Brasil e no mundo. VALDIR SILVA

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