EIXO MONUMENTAL II (Eric Clapton).
Quem nunca ouviu um disco de vinil raiz,
daqueles eu encontrávamos às centenas nas discotecas que existiam em cada rua, talvez não entenda o que foi a revolução do CD, lá pelo início dos anos 90 do século passado. Eu tinha uma coleção modesta, de uns 500 discos, e tinha um 3 em 1 National com duas caixas de som enormes e potentes. Esse aparelho de som, acredite se quiser, mantenho até hoje, e sua história merece um texto à parte.
Eu acabara de comprar um box raríssimo de LPs do Bruce Springsteen, uma retrospectiva incrível ao vivo da carreira do “The Boss”, até o ano de 1985. Lembro-me de que, quando foi lançada essa caixa de 5 discos (que orgulhosamente mantenho ali na minha seção de vinis até hoje também, com um encarte simplesmente sensacional, com todas as letras e impressão de primeira linha) os nova-iorquinos ficaram vários dias em baixo de neve para comprar aquela raridade.
Bruce merece uma imensa coleção de textos agradecidos, ele que me acompanha há tantas décadas, com sua insuperável E Street Band. Lançou um magnifico disco de covers mês passado, e voltarei a ele.
Mas naqueles dias de luta, ainda sem minhas lindas filhas terem nascido, eu viajava naquele mundo musical, como sempre, agora como trilha sonora de minha iniciação na vida jurídica.
Certo dia fui no carro de uma amiga de trabalho buscar um livro com ela, e vi aquele objeto prateado no banco, era um CD do Bruce, seus greatest hits. O primeiro CD que vi na vida. Alguns meses se passaram e outra amiga de trabalho perguntou se eu queria comprar um aparelho de CDs dela. Comprei aquele aparelho pioneiro em módicas 2 parcelas, e era como se eu tivesse comprado uma passagem para a lua. Acoplei aquele toca CD’s às minhas enormes caixas de som, e fiquei simplesmente estupefato com a diferença no som.
Peguei alguns Cd’s naquela locadora de discos de que já falei em alguns textos antigos, e o primeiro foi uma coletânea de hits da mítica Motown. O segundo foi um show ao vivo do Eric Clapton, que já conhecia desde 1976, de um disco de sucessos maravilhosos, e que ouvi recentemente de novo no YouTube, aquela máquina do tempo e de emoções que sempre me transporta para mundos melhores, no presente, no passado e no futuro. Resumo da ópera: durante um ano aproximadamente, ouvi todos os CD’s do Clapton, acompanhei sua saga sofrida e sua carreira impressionante, bluesman, rock star contemporâneo, “Clapton is God” escrito no underground de Londres, um dos maiores guitarristas de todos os tempos. Naquele período minha esposa ficou grávida, e Jéssica ouviu muito Eric Clapton no ventre da mãe.
Até que em outubro de 1990 ocorreu o imponderável, a notícia bombástica: Eric Clapton faria um show em Brasília, no Ginásio Nilson Nelson. Fomos eu e a mãe das meninas, e claro que não havia celulares ousados, atrapalhando a visão, não havia cadeiras vips, não havia jogos de luzes.
O que havia era um Clapton angustiado, furioso, apaixonado, perplexo, colocando todos seus sentimentos naquelas incríveis canções de “Journeyman”, as guitarras mais altas que já ouvi em um show ao vivo, algo visceral, cru, desesperado, esperançoso. Solos altíssimos, a voz rouca característica, como a me dizer, cara seja forte, porque o que vem por aí é muita pauleira, mas existem saídas, a família, a fé, o foco, eu já passei por muita coisa, e muita coisa certamente virá, mas temos isso aqui também, nosso elixir, a música que carrega todas nossas dores e esperanças.
Então Clapton fez a performance da última música, eu estava literalmente surdo com a altura das guitarras, e fiquei assim por quase uma hora depois do show. Uma semana depois, o teto do Ginásio Nilson Nelson desabou, e pensei, aquela altura, aquela emoção, foram demais para aquela velhas paredes calejadas.
Hoje, 32 anos depois, noite do início de dezembro de 2022, estou de novo ouvindo “Journeyman”, Dick deitado a meu lado, doente, afinal são quase 18 anos de idade, mais de 80 anos de idade se fosse um ser humano, pensando em quanta coisa aconteceu em nossas vidas, amigo Eric, em como ouvi suas canções ao cruzar a linha de chegada em maratonas mundo afora, em como elas me fortaleceram em tantos momentos de minha vida. Sim, tem aquele CD magnifíco, que nunca mais ouvi, porque eu o ouvia quando perdemos a gravidez de nosso filho, e espero poder ouvi-lo algum dia de novo. Essa é a vida, e vejo aqui na minha frente sua autobiografia, que já está na fila para ser lida novamente, com mais perspectiva de vida.
Aquele ginásio foi reformado, há um estádio de futebol enorme ao lado, herança da Copa do Mundo de futebol no Brasil, restaurantes e várias coisas foram construídas nas redondezas. Mas sempre que passo por ali consigo ouvir você cantar, entregar sua alma e seu coração. Guitarras furiosas e esperançosas, como a vida. Muito, muito alto.
VALDIR SILVA.