Você, como piloto da aviação comercial, vai achar esta história engraçada!
Minha primeira viagem de avião aconteceu quando eu tinha 27 anos de idade, a viagem de lua de mel para São Paulo, junto com a Zélia.
Naquela época, 1989, tudo aquilo tinha um enorme glamour, as passagens escritas à mão em um pequeno carnê, parecido com um talão de cheques, em várias vias.
Como office boy de um grande Banco e servidor público humilde, eu já tinha buscado várias dessas passagens para os felizes viajantes, e eu não revelava aquele pequeno segredo: nunca tinha entrado em um daquelas maravilhosos aviões.
Então eu não sabia nada do procedimento, como fazer até chegar até aquelas poltronas de couro e enfim alçar voo.
A solução foi irmos na data anterior ao aeroporto e, discretamente, ficamos observando como era o procedimento de anotar as passagens, despachar as malas e fazer a checagem de segurança. Meu próximo drama era saber como fixar o cinto de segurança, até o click.
Entre seus passageiros com certeza havia muitos como eu, nervosos, discretos e exultantes. O primeiro voo.
Por ironia do destino, anos após, passei a viajar quase toda semana de avião, e foram centenas de voos até aqui, no Brasil e no exterior. Tudo na vida tem seu tempo.
Eu soube que você se tornara piloto, e certa noite ao chegar em Brasília eu o vi ao longe, você acenou, respondi, mas fiquei na dúvida quem era, e depois percebi que era você.
Ficou faltando conversarmos sobre sua profissão, em como é a sensação de colocar aquela máquina imensa e pesada no ar, como é o reflexo da lua sobre as nuvens, lá em cima, mesmo em dias de chuva.
E o sol refletindo sobre elas, dando a impressão que estamos nos polos, as nuvens como neve. E a pergunta que não faltaria: você já viu algum UFO lá em cima, resposta que nem o Bill Clinton teve quando assumiu a Presidência dos Estados Unidos.
Você devia sempre estar com a sensação única da volta, da chegada.
Li aqui que você e sua tripulação voltaram na pista, em Governador Valadares, para buscar uma passageira que perderia aquele voo, e que estava desesperada para ir cuidar de um familiar em estado grave no hospital. Essa empatia, essa bondade, sempre te caracterizou.
Eu ouviria essas histórias e detalhes da aviação com muito interesse, como você fazia quando eu falava pela milésima vez sobre as maratonas, o trabalho no Direito, que minhas filhas ouvem quase todo dia até hoje. Só podia dar no que deu, viraram juristas!
Certa noite eu peguei vocês, e estava tocando Barry White no carro, você ouvia, perguntou quem era e disse que gostou. Deve ter se tornado fã do Maestro, apelido dele.
Hoje estou ouvindo de novo Barry White, orando por você e sua família.
Você continua seu voo, olha aquelas nuvens prateadas, a chuva lá embaixo, a cidade e as pessoas que continuam te amando.
Observe tudo, anote, vele por todos aqui embaixo.
Conte tudo para todos nós depois, com humor, com paz, com sabedoria.
Fale sobre o infinito. Como aquelas nuvens. Fique com Deus, André
VALDIR SILVA