TEMOS APENAS A NOITE
Aquele foi um ano muito difícil, mas repleto de emoções. Estava saindo de uma efervescente relação amorosa (neste terreno, todas elas eram efervescentes, aquela já era a segunda experiência da qual eu saia parcialmente recuperado, somos, afinal todos sobreviventes amorosos), aguardava ser chamado para meu primeiro emprego pós Exército, concursado aos 20 anos de idade. Havia muita concorrência, me preparei e passei. Fiquei uns 6 meses trancado em casa, me preparando para aquela prova, de forma direta ou indireta. Tudo funcionou como um relógio, calendário, disposição, interferência divina, e lá estava eu naquele domingo de chuva lançando as sementes de minha vida até hoje.
Naquele interregno resolvi dar aulas de inglês, procurei dois ou três empregos, mas dediquei meus esforços ao Collector’s Club , um sebo improvisado no quarto de empregadas lá de nosso apartamento. Foi algo inusitado e por incrível que pareça rentável. Muita gente ia lá comprar e vender revistas, livros, discos, ainda não existiam os CdS. O retorno financeiro era maior do que um emprego tradicional, então fui tocando o sebo, e aquilo ia crescendo. Li muito, conheci coisas novas, minha coleção de discos subiu a níveis estratosféricos. Claro que surgiram críticas venenosas, como ele ousa sair da caixinha, fazendo algo tão diferente?
Esses críticos medíocres se multiplicaram nos anos seguintes, nas mais diversas atividades que tive. Continuam lá, bem longe. Não tenho saudades deles.
Mas claro que eu queria ser chamado logo para meu emprego tradicional, e toda semana ligava lá para ver como estava a lista de convocações.
Até que um dia finalmente o telefonema chegou, fui convocado, fiz os exames médicos, comprei um terno humilde e, em uma terça feira de sol, tomei posse naquele emprego de nível médio, e como voltei feliz para casa após o primeiro dia de trabalho. Dias mágicos. Pensei, preciso continuar correndo, entrei no mundo das Maratonas, que vivencio ainda apaixonado por aquela mística, aquele asfalto que acena com tantas coisas espetaculares. Comecei a pensar também no futuro, na constituição de uma família, com progressos na carreira e na vida pessoal. Anos após saí daquele emprego e, ao pegar meu histórico funcional, vi que não havia faltado um só dia no período de doze anos. Eu realmente gostava de lá, progredi como eu pensava, comecei minha família, tudo deu certo.
Na semana inicial, olhei o Collector’s Club, dei um sorriso por tudo que vivi ali, as pessoas que conheci, a coragem por ter feito algo tão diferente dos padrões.
Ela me ligou certo fim de tarde, disse que me viu na rua, e que gostava de mim. Frequentava o Collector’s.
Tinha o folheto que eu imprimia em um carimbo que mandei fazer.
Disse para eu guardar aquele disco com a música do Kenny Rogers e Sheena Easton.
Noite passada assisti esse vídeo no YouTube. Kenny , lenda do country, e Sheena Easton já começando sua estrondosa carreira.
Tínhamos as noites e os sonhos.
Era o que bastava.
VALDIR SILVA