ALMAS PARALELAS (LAURA ESTÁ NO PRÉDIO)

ALMAS PARALELAS (LAURA ESTÁ NO PRÉDIO)

Nós assistimos seu show em Brasília há cinco anos atrás, como se passaram rápido esses anos, e foram os mais difíceis de minha vida, pelo menos a nível consciente, dos períodos que me lembro. A infância com certeza não foi fácil, mas aquele período agora está nas mãos do Dr. Freud.
Mas saí de lá como se estivesse em um mundo paralelo, como se eu tivesse ido lá para me carregar de sua força e sua mágica para os anos que viriam. Poucos dias depois fomos para a África do Sul, vimos coisas totalmente diferentes e inusitadas, uma de nossas melhores férias, e havia leões, elefantes e girafas na savana, boa comida e um povo maravilhoso a nos aquecer o coração. Aquela viagem foi a prova de que as grandes coisas às vezes só dependem de nosso pequeno grão de mostarda, de um pouco de vontade e ânimo. Vamos? Então vamos. A vida é muito por aí, basta acender a chama.
E na sequência, na volta, consegui o quase impossível, uma vaga para correr a Maratona de Tokyo, os míticos 42km195m. Certa tarde me ligaram da agência esportiva, perguntando se eu ainda me interessava em correr do outro lado do mundo.
Laura, aquilo era incrível, minha quarta Major. Passei o fim de tarde todo envolvido com aquela inscrição, a escolha do hotel, as passagens aéreas. De noite, esbocei minha planilha de treinos, de novo nas pistas dois anos após ter corrido a Maratona de Chicago. Sempre te ouvia de noite, como faço há quase 30 anos, e aquele final de ano parecia muito promissor.
Mas fazemos nossos planos, mas Deus é quem carimba nossos passaportes.
Minha mãe havia sofrido um derrame no final de 2017, se recuperou, mas nos últimos 3 meses de 2018 os sintomas voltaram, e começamos uma dolorosa jornada em hospitais. No final do ano ela estava indo e voltando, do quarto para a UTI, e eu ao mesmo tempo comecei uma jornada de 3 anos de viagens. Cheguei na cidade na véspera de Natal, e fui direto para a UTI, visitá-lá.
Conversamos muito naquele período, oramos, eu disse a ela que ficasse tranquila, que fez o melhor para nos criar, sozinha, pobre.
A vida me criou uma espécie de incapacidade de não ter esperança, de acreditar até o fim. Os médicos pareciam burocratas, sem a chama que eu acho que é o mais importante em qualquer profissão. Espero que tenham melhorado, que não encarem o corpo humano como uma máquina sem alma. Que pensem na cura até o fim. Que não se entreguem. Lembro da última conversa com eles em um domingo antes da última operação de minha mãe, na segunda feira. Ficaram sem palavras, reflexivos.
Aguardei sozinho na sala de espera. Saíram, os cirurgiões fizeram bem seu trabalho. Ela, na maca, abriu os olhos, eu disse a ela que tudo tinha dado certo. Foi a última vez que vi aqueles olhos, que me vigiaram por tanto tempo, que significavam tanto em um mundo frio e impessoal.
Ela faleceu na sexta feira seguinte, e na quinta feira eu perguntava na outra ala da UTI, dos casos insolúveis, se já tinham visto alguém sair de lá, curado. Disseram que sim.
Mas percebi que falavam de milagres. E eu sou do tipo que acredita em milagres.
Mas há, também, o tempo de todo mundo, e precisamos aceitar isso.
No enterro dela li o Salmo 91, como havia feito para ela nos últimos 3 meses.
A Maratona de Tokyo ficou para trás, não deu para me preparar, mas fomos lá acompanhar nossos irmãos corredores, contarei aquela experiência na sequência desta crônica.
Aquele janeiro de 2019 foi o início daquele deserto, que atravessamos a custo, até esta noite chuvosa de fevereiro de 2024.
Abro o arquivo e vejo os ingressos para seu show em São Paulo, no início de março.
Ouço “Durare” enquanto escrevo este texto. Que música linda, mais uma de seu imenso repertório de sonhos.
De 2019 até aqui sobrevivemos a uma pandemia, enfrentei a solidão em hotéis país afora, me surpreendi e me decepcionei com muitas pessoas, enfrentei situações limite em vários campos, me aprofundei no estudo da mente e do espírito, me perdi e me reencontrei.
Sem muitos sintomas , mas sabendo que era preciso seguir em frente.
Você, querida Laura, foi minha dose diária de sonho, esperança , força. Acompanhei sua carreira, seus prêmios, seu filme no qual expôs seu lado humano, suas fraquezas, como todos nós, seus medos e voltas por cima.
Cinco anos depois, somos sobreviventes, cada um no seu mundo, a nos ligar sua música. Sceglimi stasera. Noi siamo mappe sulla. schiena. Una vita dopo cena.Siamo quello che ti va.

VALDIR SILVA

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