QUARENTA ANOS (BRUCE SPRINGSTEEN (FEVEREIRO, 1984).
Hoje li duas magníficas crônicas, a última publicada de Carlos Drummond de Andrade, “Ciao”, publicada em 1984, na qual ele faz um tributo a esse estilo e nos dá o incentivo para continuar a traçar linhas mais ou menos tortas, sem exigências estilísticas, conceituais ou aquelas vindas do velho superego, que vive nos lembrando de nossas limitações, nos contendo, nos escravizando em nossas muitas vezes medíocres posições de leitores de best-sellers altamente discutíveis. A outra crônica que reli hoje foi “A última crônica “, de Fernando Sabino, que não foi a última, muito pelo contrário, publicada em 1961, e que mostra como podemos ver e sentir o lírico, o tocante, em insípidos fins de tarde, entorpecidos pela rotina e pela inquietação que, no fim das contas, é o que nos fazer sair da cama toda manhã.
E nesse garimpo existencial , como se tivesse um bino com dez aumentos a me guiar, vou colocando nesta tela de celular (confesso saudades da velha máquina de escrever elétrica, de esfera) algumas lembranças que que estão por aí, pululando, me cobrando, exigindo um lugar no espaço tempo.
Então continuemos essa saga.
Em fevereiro de 1984, acredite, eu ainda não conhecia Bruce Springsteen, e admito publicamente essa tremenda lacuna musical e existencial. Mas não fiquem decepcionados comigo, queridos leitores. Eu já tinha uma extensa bagagem musical, e se isso pode melhorar minha situação, já conhecia a fundo Bob Dylan e tantos outros poetas do rock e do folk. Elvis, ELO, Beatles, Abba, o catálogo todo da Motown, George Harrison, Tom Petty, Bee Gees, Linda Ronstadt, Rita Coolidge, Olivia Newton John, Van Morrison, Eagles, Giorgio (pioneiro com seu “From here to Eternity “, os heróis da disco music, os Jackson raiz, o britpop, o rock inglês, os progressivos, Led Zeppelin, Joan Jett, Queen, Leo Sayer, Commodores, Johnny Rivers, 10cc, Hollies, Elton John no auge, a lista é imensa.
Mas de forma inexplicável eu não conhecia o Bruce, que passou a ser uma de minhas maiores referência no rock and roll. Esqueça aquela bobagem de achar que “Born in Usa é um disco ufanista, essa canção é uma das maiores canções de protesto da história do rock. Vale a pena se aprofundar para não falar bobagem. A participação em “We are the world ” também não tem nada a ver com a carreira do The Boss. Mas foi um projeto importante.
Mas lá estava eu em fevereiro de 1984, esperando ansiosamente para ser chamado para o emprego público para o qual eu tinha passado, em concorrido concurso público. Um ano esperando, e minha experiência com o Collector’s Club já tinha dado o que tinha que dar.
Certa tarde cheguei em casa e ouvi “Anna Lisa”, do Barry White e Love Unlimited Orchestra no meu aparelho 3 em 1, e me emocionei e orei, pedindo a Deus que aquela situação finalmente se resolvesse.
No dia seguinte, me ligaram do órgão público, me convocando.
Duas semanas depois tomei posse, e como estava feliz. Aquela cerimônia simples, junto com o Lázaro, outro candidato, me trouxe até aqui, 40 anos após, outro segmento, mas se não fosse aquele início meus rumos teriam sido totalmente diferentes.
Cheguei no meu local de trabalho, um subsolo, nada glamouroso. Mas havia uma mágica por ali, pairando no ar. Pessoas simples sob minha chefia. Gente de todo tipo. Carros pretos estacionados. Nossa sala dava de frente para a garagem. Lembro de cada uma daquelas pessoas, seu jeito, suas ambições, podia intuir o futuro de algumas. Incrível o que um olhar, uma frase, pode revelar das pessoas. E de nós mesmos. Eu muito tímido, mas assertivo. O ambiente era cinzento, as máquinas tornavam o ar pesado. Na época eu era sócio de uma locadora de vinis (!), e certo dia já tinha escolhido 4 LPs para ouvir durante uma semana. Podia pegar mais um. Foi então que vi “Born in the Usa” na bancada, e resolvi levar. Aquele disco inicial trouxe Bruce para meu mundo, e que revolução. Acompanhei toda sua carreira desde então, me emocionei, vibrei, uma admiração pela verdade de suas canções, um trabalhador do rock, sucesso construído com muito suor e paixão. Nas maiores catástrofes do mundo, lá estava ele dando conforto para seus milhões de fãs, com canções viscerais no 11 de setembro, na pandemia, a gente sempre sabia que vinha algum sinal de vida e de esperança daquelas guitarras furiosas, daquela banda única, a E Street Band. Nossa catástrofes pessoais não ficaram de fora, e lá estava ele, como se falando para mim que tudo ia seguir bem.
Para colorir meu ambiente de trabalho, gravei fitas cassete daquele álbum, e perguntei para o chefe do departamento se poderia levar meu gravador para o trabalho. Foram uns 8 meses de Bruce e muitos outros animando o setor de reprografia que eu administrava. Entre uma cópia e outra, muito rock e música pop. Ninguém sonhava com CDs e Internet , nem em ficção científica.
Passados 40 anos, por uma dessas coincidências da vida, passei a frequentar aquele prédio que tanto significa em minha história , mas agora para situações especiais.
Agora vou de carros pretos.
Estacionamos ao lado do local em que ficava minha salinha e meus nove colegas de trabalho.
Parei e olhei para lá, e podia ouvir “No surrender”, aquelas notas, aquela entrega. Sem recuos, sem rendição. E esses sonhos românticos na minha cabeça.
VALDIR SILVA