PRECISAMOS CONVERSAR SOBRE A VIDA
Este carnaval de 2024 está sendo como todos os outros para mim. Nunca gostei, não vejo sentido em sair por aí dançando pelas ruas sem motivo algum. Mas o motivo talvez esteja aí mesmo, a alegria vista em si mesma, uma abstração desta vida às vezes cruel. Um sentido. O sentido da vida é um tema complexo, e sobre ele já se debruçaram filósofos , teólogos, ateus e perdidos de todos os gêneros. A vida é. Apenas isso. E partindo dessa premissa podemos ter agradáveis surpresas pelo caminho. Sem tabelas, resultados apuráveis, quantificações. Passei 4 horas desse carnaval acompanhando um interessante debate sobre psicanálise, vista pelos ortodoxos do mundo PSI
que atuam em outras áreas não psicanalíticas. Na esteira da academia de ginástica, de fone de ouvido, na sala de casa, no computador de meu escritório, vi passando por esses olhos um monte de tabelas, estudos, argumentos e mesmo um certo desespero, para demonstrar que se os tabelistas não puderem carimbar, não adianta você dizer que se curou de doenças da mente que o perseguiam há décadas. Quanta arrogância pretensamente cientificista. Imagino essas pessoas querendo dizer que Deus não existe, já que suas tabelas requintadas não conseguem comprovar isso.
Mas o que quero dizer, afastado da discussão sobre as possíveis curas técnicas para nossas angústias, é que uma certa felicidade é possível, independentemente dos prognósticos. E que você pode ser componente dessa leveza em pessoas que, sim, veem você como potencial fonte de prazer, alegria, de completude. Não é incrível? Mesmo com todas suas dificuldades, traumas, dores, histórias difíceis – e quem não as tem- você pode ser alguém insubstituível, interessante, doador, para inúmeras pessoas. O famoso calor humano. Tenho falado muito isso ultimamente , não em causa própria , como muitos podem estar interpretando. Mas como um observador não imparcial da realidade humana.
Porque quase todo mundo está imerso em seus inúmeros problemas e tragédias, e um alento com certeza pode vir de quem está aí a seu lado. Basta que se rompam esses casulos e cercas eletrificadas ao redor de nossas mentes e corações. Dar um primeiro passo, cuidadoso, mas possível.
Dar um bom dia já seria um começo importante, mas aqui alerto: nada daqueles bom dia “encaminhada “, ou aqueles cards sem nenhuma palavra especial para quem vai receber. Se você colocar umas duas ou três palavras, e o nome da pessoa, vai ser um bom dia de verdade, o sol vai brilhar no coração de quem receber, mesmo em dias frios e de chuva, e as respostas vão levar a outros assuntos , e nessa corrente vocês vão acabar conversando frente a frente , exercitando a arte da conversa falada. As pessoas ferem, sim, mas por vezes podem ajudar na cura também , para o tédio, a solidão e a desesperança. Tudo é questão de equilibrar as agendas, de levantar a cabeça dessa telinha muitas vezes inoportuna , tirar esses fones de vez em quando. Este texto surgiu neste carnaval depois que que soube de três partidas tristes, a mãe de um colega, o amigo de um amigo e a filhinha de outro. Há o imponderável, somos frágeis, no mundo teremos aflições. Vamos nos dar as mãos, nos abraçar fraternalmente, nos abrir. A travessia será possível, e a alegria ainda será possível. Porque temos a luz e a força dentro de nós, fagulha divina de sobrevivência.
VALDIR SILVA