Como já falei aqui nessas crônicas de caserna, havia uma mística em Brasília em torno dos três maiores quartéis, o Batalhão da Guarda Presidencial, nós Granadeiros, o Primeiro Regimento de Cavalaria de Guardas, os Dragões, e a Polícia do Exército. Era a época dos Catarinas, então quase todo o efetivo desses quartéis vinha de Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais e Goiás
Na minha Companhia, a Companhia do Cerimonial do BGP, a Guarda de Honra do Presidente da República, só havia 5 soldados de Brasília, e eu era um deles, apesar de ter nascido em São Paulo.
Como a grande maioria era de outros Estados, moravam no quartel, e as Companhias eram suas casas naquele período. Casas hiper limpas e organizadas, era algo incrível.
Saíam para as ruas nos fins de semana, e seus uniformes de passeio com os brasões de suas unidades impressionavam a nós civis, principalmente quem teria que se alistar e servir ao Exercito por obrigação legal. A rodoviária de Brasília nas noites de sábado era dominada pela cor verde oliva, e a PE fazia rondas constantes, caras muito altos, de capacete e cassetete, sérios, de olho em tudo, na conduta daquela multidão de soldados.
Ficava intrigado porque a PE geralmente tinha os soldados mais altos e fortes, mas comecei a perceber que tinha outros soldados ainda maiores, e esses eram os soldados do BGP. Como isso era possível?
Foi então que comecei a ouvir falar da Cerimonial, minha eterna e querida Companhia.
Às vezes eu me perguntava como tinha ido parar lá, a Companhia com as maiores tradições do Exército Brasileiro quanto à Ordem Unida. Encarregada da executar a rampa no Palácio do Planalto (no auge, duas vezes por semana, a Praça dos Três Poderes lotada, como lembrou o Gebauer esta semana), recepcionar presidentes, reis e rainhas. Éramos muito populares, como o Júnior comentou também em uma madrugada semana passada
A Cerimonial era imbatível, marcial ao extremo.
Nós mesmos ficávamos impressionados com a marcialidade dos irmãos.
Certa vez eu estava de plantão, em cima da pérgola (o pilotis), e lá de cima tive a visão da Cerimonial chegar do rancho, e senti as paredes tremerem quando eles chegaram, comandados pelo mítico e vibrador Sargento Marcon, que com certeza vai ler estas linhas. Sargento de filme, vocacionado, capaz de tirar vibração do mais desanimado guerreiro. Pelopeiro, minha tribo.
Já falei de como fui selecionado para a Cerimonial em algumas crônicas; quando percebí, estava lá na pérgola, com
fardas de passeio cortadas como bermudas, gandola (a túnica) e o tênis preto já entregue para nós.
Era o primeiro dia da quarentena, literalmente. Depois de passar por aqueles portões pela primeira vez, só pude sair 40 dias após, eu e meus irmãos Granadeiros, como se tivesse sido abduzido. Podíamos receber visitas nos finais de semana. Um rompimento total com a vida civil, um condicionamento duro porém sadio, que nos forjou. Um intensivão sobre o que é ser militar. Senta, levanta. Vozes altas, gritos de guerra, que eram verdadeiras catarses. Lá nós gritávamos muito, a plenos pulmões, e como aquilo nos acalmava. Havia uma logística, uma ciência militar ali, um planejamento, fícávamos mais fortes a cada dia, então era preciso nos submeter a nossos limites, principalmente psicológicos.
Aprendemos as patentes do Exército Brasileiro, os cabos, sargentos, tenentes, Capitão comandante de Companhia e o Coronel Comandante do BGP.
Os personagens de nosso pequeno grande drama, provavelmente os momentos mais diferentes, épicos que já tivemos em nossas vidas, e isso é recordado sempre por nós Veteranos, mesmo após tantos anos.
Sempre me perguntam, quanto tempo você ficou no Exército, mas aquela experiência não tem nada a ver com o tempo, e sim com a intensidade. É como se me perguntassem por quantos anos eu almocei com o Elvis Presley ou o pessoal do Abba. Com certeza 3 dias com eles seria algo a ser lembrado até o último suspiro de vida. Conosco da Cerimonial totalmente raiz, é a mesma coisa. Não tem muito sentido essa pergunta, pois todos nós cumprimos o que a Nação nos exigia, com sangue, suor, lágrimas e com muita intensidade e gratidão por ter sido em um local tão diferente e destacado.
Mas lá na Companhia tinham uns 30 soldados, mais ou menos, estilosos, com caras de mau, gorros em cima dos olhos, atléticos, ameaçadores, também nos dando ordens, orientando, ensinando as primeiras linhas para infantes inexperiente e amedrontados.
Eram os antigões.
Os caras do Núcleo Base, da música do Ira! Soldados que poderiam ter dado baixa, mas que ficaram por mais uns dois meses no quartel, justamente para auxiliar nesses dias de quarentena.
Lembro-me da maioria deles.
O James, o Augusto, o Moretto. Tantos outros. Dando dicas, ensinando a amarrar o coturno (coturno com zíper? Piada?), a fazer ombro arma, a desmontar e montar o FAL, a engomar a farda (um de nossos penosos serviços no Exército, como aquilo era difícil, na Quarentena passei noites em claro fazendo aquilo). Eles tinham participado de uma campanha publicitária do Exército, na TV, passava várias vezes, a Grande Passagem, de que já falei na crônica “Granadeiros e Dragões”e de repente alguns deles estavam alí conosco. Passaram a ser nossa referência naquele período. Certa noite, alarme no quartel, apitos, correria, gritos, um deles falou “Bem vindos ao inferno verde”. Agradeço àqueles jovens infantes, antigões para sempre em nossa memória. Que tenham sido muito felizes em suas vidas, que se lembrem daqueles recrutas amedrontados e saibam que muitos deles viraram antigões, como o Scapelatto, o Bisol e outros. Alguns viraram cabos sargentos e carregaram nossa chama por mais alguns anos.
Chorei 3 vezes no Exército, na Quarentena, uma vez no treinamento da SUOPES, do Pelotão de Operações Especiais, o PELOPES, que eu integrava, e claro que na baixa.
Mais um dia intenso tinha finalmente chegado ao fim, no límite físico, mental e psicológico, finalmente iríamos poder ter um pouco de privacidade e de silêncio, e isso só ocorria quando íamos para nossos beliches, quando pensávamos, meu Deus, três dias apenas se passaram, como vou sobreviver aqui mais 362 dias.
Então o toque de silêncio ecoava pelo quartel, e aquele toque soava como um bálsamo, um alento, uma oração, era e é um dos mais belos do Exército.
A cada nota, uma lágrima, mas então uma força e uma paz surgiam, e dali a algumas poucas horas o dia iria raiar, e seríamos imunizados, e ficaríamos confiantes, guerreiros, orgulhosos por termos vencido tantas coisas no Exército até hoje, julho de 2024, agradecendo aos antigões de ontem e de sempre.
VALDIR SILVA