VOCÊ TEM SAUDADES DO QUÊ?


Mês de julho, seco e frio. Este mês sempre me traz à mente os JEBS, Jogos Estudantis Brasileiros. As delegações vinham para Brasília, e ficavam hospedadas nas escolas da cidade. A delegação de São Paulo, meu Estado, ficava justamente no Colégio do Setor Leste, que para mim não era apenas um prédio, mas o primeiro trabalho seguro de minha mãe na Capital da República, nossa residência por um período (vou contar essa história) e também onde estão depositadas minhas mais doces lembranças de estudante. Escola pública de altíssima qualidade, tradicional. A primeira vez que entrei em uma piscina foi lá. Em julho de 1973 minha mãe chegou em casa com uma revista em quadrinhos chamada “Dedinho “, do Departamento de Educação Física, e foi aí que ouvi falar dos JEBS pela primeira vez. Brasília no início, no Gama, era como um planeta distante, e aquela competição, para mim, era algo fenomenal. Eu acompanhava o desempenho de São Paulo naqueles boletins mimeografados, e ano após ano, até 1976, eu pensava em participar. Minha mãe trabalhava nesses Jogos, e contava histórias daqueles atletas juvenis, as saídas para o refeitório na UNB, os beliches nas salas de aula. Os ônibus deles circulando pela cidade.
A grandiosidade, o glamour, a cor da vida, está nos olhos e na percepção de quem vê. Por isso precisamos tomar muito cuidado para não deixar as lutas da vida nos tirarem a capacidade de filtrar o que realmente importa, e que nos dá o brilho no olhar. Porque sequer New York ou Paris serão capazes de retirar um mísero suspiro de alegria de você. Não falo de questões de saúde psicológica, inevitáveis para todo ser humano, e digo todos, inclusive você e eu, mas de atitude perante a vida.
Os meses de junho e julho, de 1973 a 1976, foram marcados para mim por esse mundo esportivo juvenil, junto com o frio e a seca que marcam essa época do ano.

Eu jogava basquete em todo recreio quando estudava no Setor Leste. Quadra bem cuidada, jogadores esforçados, inclusive uma menina que me chamava muito a atenção pela agilidade e beleza, loirinha, e que passou a formar dupla comigo. Certo dia eu voltava para a sala de aula, e o técnico da Seleção de Brasília, que estava lá no Colégio em visita, me viu e disse, boa altura, me procure lá no DEF na terça feira de noite. Aqueles treinamentos foram maravilhosos, coisa de profissional, o técnico dizia que estava gostando de meu desempenho. Lá conheci um rapaz que veria anos após na Seleção Brasileira de Basquete, inclusive em Olimpíadas.
Mas depois de dois meses, sem apoio ou condições em casa, não mais fui aos treinos. Nada de JEBS ou Seleção Brasileira.

Fiz teste para trabalhar em um grande Banco, como menor aprendiz, aos 14 anos de idade, comecei a trabalhar na semana em que completei 15 anos.
No Banco, um dos profissionais de meu setor, 2 metros de altura, me falou, aproveite sua altura, eu não aproveitei. Ser alto, 1,91, fez diferença ao servir o Exército, como já falei em vários textos

Anos após conheci outro esporte, a corrida de longa distância, corri várias Maratonas Internacionais (o termo Maratona se refere apenas à distância oficial, de 42km195m. Nada de chamar corridas menores de “maratona”, isso é uma heresia), pretendo continuar, se Deus permitir, até os 80 e além.
Sim, é preciso sonhar e concretizar o sonho.

Mas em dias de julho como hoje, frio, olho pela janela, vejo a vegetação seca, e sinto aquela bola de basquete pesada, o arremessar da bola e o som do chuá. O abraço de minha parceira de jogos. Saudades infinitas, de minha mãe, do Setor Leste, daquela quadra, de meus amigos de treino. De mim mesmo. Mas feliz por ter conseguido virar esse misterioso e apaixonante jogo da vida.

VALDIR SILVA

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