PAREDES (PILOTO)
Era para ser apenas a compra de um almoço simples. Essas comidas entregues em casa nunca ficam igual à dos restaurantes, ficam em geral muito ruins. E cozinhar não é o forte de ninguém aqui em casa.
Então lá fui eu, e acabei parando em meu antigo bairro. Peguei o EIxo Monumental, saindo de meu bairro atual, o Noroeste. Depois de tantas mudanças de casa em minha vida, que me deram tantas e tantas experiências, resolvi assumir esse lado nômade e não comprar mais um imóvel, mas apenas alugar. Na minha idade atual e ainda com muitos sonhos e metas, desapeguei desses símbolos e vou passar a viajar mais, conhecer um pouco mais desse mundo. Conhecer mais gente, mais culturas, mais mundos, porque se pensarmos bem existem tantos mundos quanto existem pessoas. Cada um com sua rotina, suas perspectivas, suas generosidsdes, egoísmos, heroísmos e covardias. Essa questão sempre chama minha atenção, bilhões de pessoas que nunca conheceremos e que vivem de forma parecida conosco, em cidades maravilhosas ou sofridas, em palácios e nas ruas, o que nos dá a dimensão de como somos pequenos em nossa vaidade, atrás de diferenciais materiais, o carrão, a mansão, as infinitas vaidades intelectuais, último refúgio da busca de sentido na vida. A vida simplesmente é, seu significado é ela própria. Mas, claro, a busca intelectual é o caminho, e também estou enfronhado nele, mas não o final, porque o final não existe, a busca não tem fim. Há vinte anos, quando corri a Maratona de New York City, comecei a ter essa visão mais forte. Cidade imensa, mágica, acolhedora, e com uma magnífica sopa de tomates na Livraria Barnes and Nobles, na Quinta Avenida.
Já relatei aquela corrida aqui, um verdadeiro filme épico.
De lá para cá conheci uns vinte países, e em todos eles caminhava pelas ruas, observava os prédios, as casas, as crianças indo para a escola de mãos dadas em Washington, trabalhadoras deixando suas bicicletas encostadas nos postes ou as colocando nos trens do metrô, como em Copenhaguen, os japoneses educados e calados em Tokyo, o silêncio da estação de Toronto, parecendo uma biblioteca. Tantas vidas, tantos mundos. As paredes de suas casas contam muito, porque as pessoas lá dentro, na grande maioria das vezes, se mudou, cresceu, faleceu, se perdeu. E aquelas paredes, as que não foram demolidas, guardam essas histórias não contadas.
No EIxo Monumental, virei à direita, entrei na sequência da pista do Setor Militar Urbano, e aquelas paredes foram surgindo na minha mente e no meu coração.
Comprei o almoço e, ousadamente, fui atrás de 2 ou 3 paredes de minha infância e adolescência.
As ruas mudaram muito nesses anos todos, sobrados foram construídos, ocuparam os mínimos espaços do terreno até às ruas. Acabaram os gramados, as calçadas nos fundos, ficou tudo amontoado, apesar da beleza dessa e daquela casa. Minhas paredes não existem mais, foi difícil até localizar o local exato das casas.
Mas quantas histórias estão lá impregnadas, no espaço acima, como um filme que revejo sempre.
Tanta música, quantos livros, quantas paixões, quantos dramas, quantas lutas, quanta tristeza e quanta felicidade.
Está tudo lá, como em uma holografia.
Sim, são apenas paredes e a história de mais uma vida neste mundo de tantos mundos.
Mas essas paredes querem falar, e desde lá em São Paulo, nos anos 60.
Senti isso com muita intensidade voltando para casa, já com nosso almoço, vim devagar, pensativo, emocionado, ouvindo clássicos dos anos 80.
Sim, escreverei sobre aquelas paredes, nessa humilde série que agora começo a publicar.
Palavras de amor.
VALDIR SILVA