CARA AMIGA POR CORRESPONDÊNCIA (SHANNA STEWART)

CARA AMIGA POR CORRESPONDÊNCIA (SHANNA STEWART)

No início de 1975 fomos morar naquela casinha de fundos. Esta crônica pode ser incluída na série “Paredes “, mas farei uma somente para falar sobre aquela fase. Mas, como sempre, meu mundo girava em torno da leitura. Lia de tudo, livros, gibis, revistas de todos os tipos, até fotonovelas que misteriosamente apareciam lá em casa. Os leitores modernos talvez nunca tenham ouvido falar em fotonovelas, era algo fantástico, revelador da criatividade do artista nacional. Em uma outra casa em que morei, e aqui o inusitado surge forte, havia centenas e centenas de fotonovelas e as revistas Manchete, o Cruzeiro e dezenas de outros títulos. Com direito a uma anfitriã de filme, com aparência misteriosa e velas na mão, já que não havia energia elétrica ali, início de Brasília, tempos pioneiros. Outro episódio de “Paredes “, não darei spoilers.

Voltando. Lá estava eu, início de 1975, minha bicicleta monareta encostada na estante, eu lendo a Seleções do Reader ‘s Digest (depois chegaria um período em que eu tinha toda a coleção dessa revista) quando li o anúncio do Dear Pen Pal, um clube de correspondência americano , dizendo para fazermos um intercâmbio internacional de ideias. Naquela época falar em Estados Unidos era como falar em Marte. Ouvíamos música americana o tempo todo, Elvis tinha feito o mitológico concerto no Hawai, Elton John começando sua carreira inigualável. Na TV, somente filmes e séries americanas , na TV branco e preto. TV “à cores” no Brasil tinha surgido no ano anterior, era coisa de gente abonada, nunca tinha visto uma. Então só de pensar em me comunicar com o exterior já era coisa de sonho. Como hoje , quando mudo de casa frequentemente por vontade própria, nós mudávamos muito de casa, mas por necessidade. A média era de um ano por casa, quando muito. Quando chegamos em Brasília, vindos de São Paulo, fomos parar no Gama pioneiro, meio faroeste, e nos mudamos umas oito vezes no período de dois anos, de 1971 à 1973. Com esse padrão, era impossível ter um endereço fixo para colocar nas cartas. Então fiz minha inscrição no Dear Pen Pal colocando o endereço de um tio que morava na Asa Sul. Dois meses depois recebi um cartão em inglês , dando-me as boas vindas, com um texto enorme no verso, explicando a dinâmica do Clube, e já me passando o nome e endereço de minha querida amiga por correspondência: Shanna Stewart, de Santa Bárbara, Califórnia.
Vejam, meus pacientes leitores, como a vida segue unindo pontos invisíveis em nossas jornadas, mudando nossos destinos.
Em 1975 crianças pobres de 13 anos de idade nunca tinham estudado inglês ou qualquer dessas atividades de classe média. Eu era o melhor aluno da classe, sempre fui, mas nunca tinha estudado nada de inglês, em São Paulo o idioma ensinado nas escolas públicas era o francês, e só no ginásio. Traduzir aquele cartão foi uma epopéia, até que minha mãe pediu para a Ingrid, uma linda aluna do Colégio do Setor Leste, para me traduzir aquilo. Fui na casa dela buscar, e claro que me apaixonei por aqueles olhos azuis. Na realidade eu me apaixonava mais ou menos de seis em seis meses por aquelas meninas simpáticas e misteriosas.
Para mim ficou claro que não chegaria longe naquela aventura internacional sem falar inglês. Então busquei ajuda naquela fonte inesgotável de amparo, as revistas. Havia um anúncio de uma famosa escola por correspondência, e não pensei duas vezes, fiz minha matrícula em um curso de inglês. Pouco depois chegou na casa de meu tio a primeira de inúmeras apostilas com aulas. Foram 2 anos estudando inglês em profundidade, muita tradução e versão. Quando comecei a estudar inglês no Colégio do Setor Leste (sempre ele) já tinha uma boa bagagem de inglês, e só tirava a nota máxima, deixando para trás alunos que também estudavam nas escolas de línguas tradicionais. Encerrei o curso por correspondência com 14 anos de idade, com nota 10. Foi o início dessa jornada com os idiomas, nunca deixei de estudar e, claro, de outras e variadas formas. Os ouvidos ficaram treinados, identificam fonemas insuspeitos. Quando enferrujo faço versões e traduções, como fui ensinado naqueles tempos épicos. Os ouvidos estão sempre na terra de Shakespeare. Sou fluente em inglês, e estou me divertindo muito estudando alemão e italiano. Por diversão e curiosidade. A curiosidade é o que me move.
Quero ficar fluente também em italiano e alemão, então diversão garantida nesses dias que Deus me permitir. Francês será o fim dessa saga, e então me lembrarei daquelas tardes geladas de São Paulo, eu com 7 anos de idade tentando entender alguma coisa daqueles manuais coloridos de francês. Mas agora por causa da psicanálise, outra janela que se abriu para mim há uns cinco anos.
Era uma tarde de terça feira, passei na 403 Sul para pegar minhas aulas.
Havia também um envelope cinza com bordas vermelhas e azuis.
Remetente: Shanna Stewart.
Um papel de carta perfumado, um doce perfume que me acompanhou por 4 anos.
Ela tinha olhos azuis e sardas no rosto. Estudava muito, gostava de andar de bicicleta ao ar livre, de patinar. Me falava de sua escola, seus amigos.
Sonhava com os trópicos, o que você está fazendo fazendo aí.
Eu dizia que estudava e sonhava. Também com os Estados Unidos. Era como estar em contato com outro mundo, outro universo, e era mesmo.
Perdemos contato.
Quarenta anos após, eu dirigia um Nissan pela Califórnia, e pensei muito em você, Shanna.
Minha vida depois daquele período foi uma verdadeira batalha, uma saga. Mas as sementes de sonho plantadas por você ainda estão aqui plantadas em meu coração, florescendo.
A entrada no mundo dos idiomas foi por sua causa, e como isso mudou minha vida. E me ajudou a sonhar, quando sonhar era um luxo distante.
Obrigado por tudo.
Sinto, de alguma forma, que sua vida foi mágica também. E perfumada.
Com visitas a países distantes, talvez até mesmo o Brasil. Não sei se pensa em mim ou se lembra daqueles quatro anos. Mas os sonhos são assim mesmo. Um lampejo. Um sorriso. O pulsar de um coração em tardes quentes.
É o que buscávamos naquelas cartas vindas de paraísos imaginários, que são o que de mais real existe.

Com carinho, seu eterno amigo por correspondência,

VALDIR SILVA

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