SIMPLESMENTE NÃO QUEREMOS FICAR SOZINHOS

SIMPLESMENTE NÃO QUEREMOS FICAR SOZINHOS

Os temas sobre a vida, o passar do tempo, o adoecimento e a morte, são com certeza os que mais estão presentes na música, no cinema, na literatura. E isso reflete nosso íntimo, nossas intuições, percepções e vivências. Estamos o tempo todo pensando nisso, conscientemente, e também agimos movidos por essas questões de forma inconsciente. Sou onde não penso, diria Lacan. Mas tirando essas perplexidades sobre o passar do tempo, muita coisa não restaria para merecer duas ou três linhas de texto, a não ser que sejamos cientistas objetivos, pragmáticos, alheios às questões filosóficas teológicas e as do mundo PSI não ortodoxo.
Somos seres que pensam mas que, basicamente, sentem. E sentimos o medo de passar por essa jornada desacompanhados, sem que ninguém testemunhe nossa saga de vida em um nível muito pessoal, íntimo, único. Por isso o psicanalista tem dentre suas funções essenciais essa, a de ser testemunha de nossas vidas. Alguém dirá, sim, mas em troca do vil metal. Mas essa é a realidade e, em troca, iremos alcançar níveis de entendimento de nós mesmos que dificilmente teremos no mundo das telinhas espertas e medíocres.
Porque conseguir conversar frente a frente com alguém hoje em dia é quase impossível. As pessoas não conseguem fixar o olhar, dispersas e olhando o tempo todo para o celular, em busca de doses de dopamina que chegam à conta gotas, geralmente na forma de carinhas coloridas. Voltamos aos sinais nas cavernas! Conversamos por símbolos. Então a reflexão sobre as coisas realmente importantes, ligadas ao passar do tempo, somente acontece quando ouvimos uma música que realmente nos toca, quando lemos algo mais profundo, quando uma lágrima furtiva escorre de nossos olhos quando os letreiros sobem ao fim daquela matinê, e tentamos disfarçar.
Mas a voz embarga nessas horas, a chaminé sendo limpa. Faça o teste. Você pensa o dia inteiro em coisas essenciais, dessas que tem vergonha de expressar, afinal a imagem que tenta passar passa longe desse coração sofrido, que pede atenção. Mas ao pensar apenas, vai levando, sobrevivendo, entre um compromisso e outro, e os compromissos vão se multiplicando de forma artificial, diretamente proporcional à sua angústia essencial. Mas se ousar, milagrosamente, e abrir a boca para falar algo sobre esse mundo interior, verá que as palavras são cortadas por uma vontade incipiente de chorar, e aí se cala ou rapidamente muda de assunto. É essa panela de pressão que precisa ser aliviada, pela palavra, como Freud descobriu.
Essa luta por status, reconhecimento, cargos, dinheiro, admiração, é apenas a fuga desse destino humano finito e aparentemente sem sentido (voltarei ao “sentido” em outro texto), e uma forma de dizer, estou aqui, sou bom, preciso de carinho, de atenção, sou especial. Então me ouça e me acalente. É basicamente isso. O ser humano é incompleto, e sempre o será. Foge da solidão, e inventa até mesmo essa tal de solitude para sofrer menos.
Paul McCartney admitiu isso, e há décadas nos brinda com tolas, magníficas e essenciais canções de amor. Silly Love Songs.
Ele e todo o mundo da música, do cinema, da literatura, da espiritualidade.
Porque tudo o que queremos é um pouco de amor.
Deus nos criou carentes, mas colocou dentro de nós esse poder imenso, que é o remédio e a cura, que é o amor em todas as suas concepções. Algo que ansiamos e que, milagrosamente, está dentro de nós. Mas que somente libera sua força curativa em combinação com o amor liberado, em uma ignição mágica. Esse o segredo perseguido há séculos, e que está tão perto. Basta olhar em volta e ter uma atitude de descoberta.
Estarei aqui, como testemunha.

VALDIR SILVA.

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