Quando comecei a trabalhar como menor aprendiz, em 1977, eu já ficava olhando aqueles óculos escuros nas óticas que ficavam na Galeria dos Estados. Sim, já falei sobre aquela passagem subterrânea entre o Setor Bancário Sul e o Setor Comercial, onde passava várias vezes por dia levando documentos, fitas magnéticas de computador (sim, sou pioneiro daquela fase inicial, fitas enormes de rolo, cartões perfurados, fitas cassete com códigos indecifráveis, que me eram dadas depois de utilizadas, e nas quais gravei grandes trilhas sonoras). Leiam “Galeria “, vão ter uma ideia do que era aquele local inesquecível. Mas eu comprei uns óculos escuros mesmo foi em uma barraquinha de camelô, a caminho de meu ônibus. Naquela época eu assumi um visual estiloso, cabelos encaracolados grandes, jaqueta de brim e, claro, meus óculos de marca indefinida.
Os anos se passaram, o Exército tinha ficado para trás, em termos, porque está dentro de nós Infantes da Cerimonial raiz até hoje, décadas após, em nossas mentes, corações e almas. Mas lá estava eu, passei naquele difícil concurso público, o primeiro de vários, e finalmente consegui comprar um Ray- Ban preto, aviador. Era minha marca registrada, andava sempre com aqueles óculos, gostava muito e assumi aquela aura de roqueiro barbudo, mesmo usando meus ternos simples (tinha dois).
Aqueles óculos acompanharam minha primeira incursão no mundo indecifrável do coração.
Emoções novas, dimensões insuspeitas. Creio que aquela minha ingenuidade era, e é, elemento essencial para quem quer viver o amor e a paixão de forma verdadeira, sem jogos, maquinações, cinismos.
Sim, eu era assim.
Vivi literalmente aquele ano em outra dimensão, que me aliviava da extrema dificuldade financeira e dos quebra-molas da vida, grandes responsabilidades assumidas e o coração aberto.
Chegou dezembro, presente simples no Natal, mas um dos maiores que já recebi. Chuva, comidas típicas, e a viagem no dia 31 de dezembro.
A levei na rodoviária, avião era coisa muito longe de nossas possibilidades.
Voltei para casa naquele fim de tarde, em minha heroica Brasília vermelha, ouvindo Bruce Springsteen no toca fitas, com meu Ray- Ban, e as lágrimas escorriam contra o sol.
Passei o ano na Igreja, como sempre, e os meses seguintes me acompanharam com muita esperança, saudades infinitas, espera pelos carteiros e por aquelas cartas que me sustentavam. E aqueles óculos testemunharam muitas coisas que me acordaram, me fizeram feliz e triste, mas me deram uma das bases do que sou hoje, homem experiente, psicanalista em formação, mas que mantém aquela mesma substância daquela tarde tão distante, e que se repetiria meses após.
Contarei a conclusão daquele romance em outro texto.
Mas a música, juntos com muitos interesses, me mantiveram milagrosamente jovem, mas vivido e vacinado contra várias intempéries da vida.
E os mesmos olhos brilhantes, genuínos, de quando coloquei “Drive all night ” para ela ouvir, naquele meu maravilhoso 3 em 1.
Agora estou ouvindo The Chief, Eric Church, com seus inseparáveis óculos escuros (modelo novo, encomendei um igual),dizendo que podemos congelar nossos momentos inesquecíveis, ouvir guitarras altas, encontrar apoio nos amigos de décadas, nos discos, em Deus e também , claro, dentro de nós mesmos, essa usina inesgotável de força e resiliência.
Sempre jovens no coração.
VALDIR SILVA