VINTE E SETE

Janeiro de 93, a passagem de ano na fazenda tinha sido muito boa, dia primeiro eu já estava estudando Direito Penal, preocupado. Ficar sozinho em um quarto na casa ao lado não era opção, muito isolado. Volta para Brasília, estava passando no concurso para promotor de justiça recém saído da faculdade, precisava pegar aquela chance. Família para trás, 9 horas de estrada ouvindo rock and roll sozinho, serra, curvas perigosas, paisagem deslumbrante. Na bagagem sonhos e muita fé. Minha princesinha Keka com um ano de idade me acenou da cerca e me doeu o coração. Guará I, segundo andar, meu palácio. Somente eu e os livros. Disciplina espartana. Férias do trabalho. Tragédias na TV, Delmanto, Mirabete e Theodoro Júnior na mesa. Fadiga. Saudade. Silêncio não. Bruce, Bob, ELO, Four Seasons já mereciam o olhar de Clint Eastwood, que lhes fez justiça décadas depois em uma obra prima emocionante. 200 vinis ali naquela estante. A família Silva já dava sinais do que viria, mas meu canal era outro. Estes dias aqui sozinho precisam valer a pena. Você não é Pelopeiro? Garra. Supere-se. 9 as 12. 14 às 22hs. Todo dia. Domingo a domingo. Internet só em ficção científica, na mente de Asimov. Corridas no fim do dia no parque. Um dia o vizinho saiu, vi pela janela. Voltou muitas horas depois, eu na mesma cadeira. Hora de parar. Legião Urbana em um de seus discos mais pungentes. Trilha sonora daqueles dias árduos. 27 dias naquele janeiro distante. Elas voltaram em um domingo de tarde, Jessica corada pelo sol,  naquela cesta segurada pela Zélia. Minha primeira filha, meu tesouro, minha vida. Deus nos trouxe Sarah anos depois, e fomos muito felizes. Mas naqueles dias ganhei um irmão. Anderson. Estava ontem em outra mesa. Feliz e positivo como sempre. Como em uma crônica de Paulo Mendes Campos. Deus te abençoe, meu irmão. Tudo passa, tudo passará, dizia Renato Russo naquela canção. Mas as pessoas que acolhem e sentem ficam. Obrigado. VALDIR SILVA

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