ANIVERSÁRIOS E CASTELOS

ANIVERSÁRIOS E CASTELOS

Lembro-me de muitos aniversários meus, principalmente depois que viemos para Brasília, em outubro de 1971.

Por incrível que pareça, não lembro de nenhum antes de eu completar 10 anos de idade. Por mais que não existisse em minha família, e não havia, a cultura da comemoração de datas especiais, a partir de 1972 eu passei a associar certos fatos às datas e, assim, eu passei a me lembrar delas por via indireta. Os 10 anos de idade, quando ganhei uma calça boca de sino, uma calça de jornal, moda em 1972, eram roupas com estampas de manchetes de jornais, como se fosse um jornal ambulante. Acredite, aquilo era o máximo de modernidade naquele ano, e eu me sentia realmente o máximo com aquela calça.

Quando fiz 11 anos de idade ganhei “A Conquista do Mar Oceano, de Virginia Lefevre, sobre a descoberta das Américas, e aquele livro me despertou ainda mais o gosto pela História, gosto que mantenho até hoje, tenho dezenas de livros de História em casa, e os leio.

Os 12 anos de idade foram comemorados – ou simplesmente passados – em plena Copa do Mundo de 1974, e eu passava os momentos livres fazendo embaixadinhas e chutando uma bola humilde nas paredes de nossa casa, imaginando-me um Marinho, um Beckenbauer, um Cruyf, da Laranja Mecânica Holandesa. Tinha um amigo de escola, o João Batista, da Escola-Classe 413 Sul, que vivia fazendo esquemas de jogadas em desenho. Éramos os melhores alunos da classe, e muitas vezes fui na casa dele trocar gibis, ele também era aficcionado por histórias em quadrinhos, meu grande e único passatempo na infância. Nos intervalos das aulas jogávamos futebol com embalagens vazias de xampu, e como era divertido aquilo. Nas aulas de Educação Física  eu comecei a jogar handball, eu era muito bom, até por causa da altura. Meu apelido era Canguru, por interceptar as bolas bem alto. Claro que me apaixonei por uma professora e por ela, uma de minhas inúmeras paixões platônicas anos afora. Espero que os anos lhe tenham sido generosos e felizes. Eu gostava de escrever a chamada “composição”, e um livro foi marcante, chamado “Redação Escolar Criatividade”, acho que era isso, um livro azul e, na verdade, mágico. Dei asas à imaginação naquelas aulas, e fazia verdadeiras séries, que lia para os colegas de turma. Não menosprezem o poder dos livros didáticos em certas fases da vida, eles realmente podem moldar sua maneira de ver o mundo. Livros, para estudar, meditar, refletir, aprender, não meras apostilas feitas para garantir uma aprovação naquela universidade da moda. Soube, muitos anos após,  que o João havia falecido,  problemas prematuros de saúde,  e em toda Copa  do Mundo  imagino como seriam os novos esquemas táticos que ele  gostaria  tanto de desenhar. 

 

Os 13 anos chegaram rápido, e quanta coisa aconteceu entre os 12 e os 13. Fatos absolutamente marcantes, em um timing mais humano, mais real, dias que corriam mais lentos, sem esses aparatos tecnológicos que, paradoxalmente, aproximam e afastam muito as pessoas de carne e osso hoje em dia.

Naquele período ganhei meu primeiro e único e inesquecível, não brinquedo, mas uma máquina de sonhos: uma bicicleta Monareta de marcha, em pleno 1975, na verdade ganhei aquela bicicleta no Natal de 1974, e nunca um caminhão de entregas foi tão esperado por uma pessoa, como eu esperei aquele.

Um amigo meu disse, por que não escreve suas memórias, e vou fazê-lo. Eu já disse aqui, para meus pacientes leitores, que as mais extraordinárias histórias são as nossas, as reais, as histórias do dia-a-dia, entre a família, o emprego, a escola, a universidade, entre um drama ou dois. E a grande maioria das pessoas vive coisas extraordinárias e as guarda dentro de si, sei que é uma opção, mas suas histórias podem encantar e inspirar muita gente. Voltarei a este tema, em um texto específico.

Podem ficar tranquilos, não vou falar de cada um de meus aniversários hoje, aqui neste texto, e olhe que são muitos aniversários, guardo a maioria deles na memória e no coração.

Vou parar no aniversário de meus 14 anos de idade.

Como diz Renato Russo, há dias meio santos.

O ano de 1976 para mim, a minha história e minha formação em vários aspectos, foi um ano simplesmente fenomenal, um dos melhores de minha vida. Fique atento às percepções de seus filhos e filhas aos 14 anos e idade, são seres humanos absolutamente antenados, com os alicerces sendo formados, com uma capacidade imensa de concretização. Não, não são crianças, apesar de seus sistemas ainda estarem em formação – como os nossos, ainda, na fase dos cinquenta (nós, Granadeiros e Pelopeiros da mítica Cerimonial de 1981).

As quatro estações de 1976 merecem ser contadas.

Mas hoje o tema são os diversos aniversários de minha vida.

E naquele humilde castelo em que morávamos, em certo momento recebemos a visita de minha vó, Maria dos Anjos, e de Tia Rosária. Elas iam e vinham, passavam temporadas, e a dinâmica de nossos dias mudava muito.

Eu me sentia muito energizado, não o super-homem de Nietzche, mas uma pessoa que acreditava em Deus – e continuo acreditando cada vez mais – mas era uma força que talvez não combinasse com os fatos e a situação objetiva a minha volta.

Sim, eu sentia que tudo seria possível em minha vida, estava absolutamente tranquilo e centrado, somente esperando o momento certo de minha vida chegar, para conseguir aquilo a que me propusesse fazer, sempre com esforço e fé. Era essa a fórmula: fé, confiança, preparo, tranquilidade. As adversidades eram coisas normais e, como o sol e a chuva, passariam. Era no que eu acreditava.

E no início de julho de 1976, Tia Rosária começou a fazer os preparativos para algo então inédito para mim: me faria um bolo de aniversário. E falava aquilo como se fossem os preparativos de uma grande festa. Mas a lista era simples, foi dizendo, eu ia anotando. Falou algo que eu não entendi, uma palavra difícil. Fui ver o que era quando cheguei na prateleira do supermercado. Essência. Essência de baunilha. E chegou o dia de meu aniversário, e aquele quarto e sala foi invadido pelo cheiro do mais delicioso bolo de baunilha, com cobertura, que jamais tive em aniversários nas décadas seguintes.

Dia desses eu estava voltando para casa e resolvi passar naquela rua. Estacionei, pisca-alerta ligado. Olhei para aquela casa, pensei naqueles dias dourados, e agradeci  mais essa experiência que Tia Rosária me deixou, uma humilde trabalhadora brasileira, analfabeta com alma de diplomata, dos bons. Não teve acesso à educação formal, e nem precisava. Via e sentia o essencial, o que vale realmente a pena nesta vida, o amor no coração, nas intenções. O poder de um bolo de aniversário, em uma data distante no tempo, celebrando a fé, o poder da esperança e a mágica que podemos criar em qualquer situação. Com sabor de baunilha.

VALDIR SILVA

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