DIA DE FORMATURA – CAPITAL DA ESPERANÇA
Querida netinha Sofia, ontem foi a formatura de sua tia Sarah, a terceira pessoa que você viu após nascer, primeiro fui sua mãe, claro, depois seu pai, ela e depois eu, seu avô e cronista oficial de nossa família. Foi uma cerimônia muito bonita, ontem foi o culto ecumênico, com um frei e um pastor. Hoje vai ser o baile, vou contar para você como foi cada uma dessas celebrações.
Mas eu estava lá na formatura, sentado, muita gente, muita música, depois os discursos. Vi a Sarinha lá no meio de seus colegas, ela me olhou e eu acenei. Fiquei emocionado, me deu vontade de chorar. Sim, eu choro às vezes, mas não muito, eu me controlo, mas as lágrimas descem. Vou escrever um texto depois, só sobre as lágrimas, curativas, ligadas diretamente à fala, como diria meu eterno professor Lacan.
É que aquela formatura, a última formatura de minha geração(a próxima será a sua, eu já nos bastidores e aqui nessas linhas), foi uma espécie de fim de temporada da grande série que é minha vida.
Era outubro de 1971 , estávamos em uma estação de trem em São Paulo, minha mãe, eu e seu tio avô. Apenas uma mala , grande, feita de um material duro, tipo papelão , próprio para malas. Não tínhamos móveis, uma ou duas trocas de roupas , dinheiro para alimentação nos dois ou três dias de duração da viagem até Brasília. Eu trazia alguns gibis, o número 1 do Almanaque Disney e mais nada. João, Isaque e Daniel choravam naquela estação quando o trem foi se afastando. Eu também chorava. Nunca mais os vi. Quem sabe isso ocorra ainda, todos são oficiais da reserva da PM de São Paulo. Certa noite joguei o nome do João na Internet, e fiquei feliz em ver que foi comandante, muito respeitado. Lembro deles chegando de Assis, o pai vendedor ambulante de biscoitos, a mãe dona de casa, e cinco filhos, os três mais o Aniel e a Silvia. Foram atrás do eldorado paulistano, nós viemos atrás da sobrevivência na capital da esperança.
Fomos parar no Gama do início, muita erosão, lama e mágica no ar.
Sim, mágica , casas em construção, carroças, jardins, hortas e cheiro de amoras pelo ar.
Os detalhes virão depois, netinha. A vida não era fácil, mas era emoldurada de uma substância que sempre me acompanhou, talvez o foco, a abstração, a fé inabalável no futuro. Mas eu não me preocupava com a pobreza, as carências de todos os tipos. Eu apenas vivia um dia de cada vez. E sonhava com os pés no chão. O que não podia faltar eram os gibis e os livros de aventura, que eu ia garimpando naquelas pequenas bancas de jornais. Eu estava na segunda série, e fui matriculado em uma escola classe para terminar o ano , na Shis Norte, um dos bairros de lá. Fiquei feliz porque as paredes eram cobertas por personagens Disney, serviam lanche (!), em Brasília chamavam de merenda, palavra que eu não conhecia lá em Vila Guilherme, São Paulo. As pessoas falavam diferente aqui, e depois percebi que eu também falava diferente, com sotaque paulistano típico. Os primos lá do Gama riam desse sotaque e também de um inexplicável toque português em minhas palavras. Depois você vai conhecer a origem desse sotaque. E tanta coisa aconteceu naqueles primeiros dias no Planalto Central. A busca heróica de minha mãe por emprego, e foram tantos. Oito mudanças de casa nos dois primeiros anos, até 1973. Três temporadas em casas de tios, o sonho com uma daquelas casinhas populares que eram como se fossem castelos, andávamos pelas ruas e tinha as casas sendo aumentadas, um, dois, três quartos a mais, quintal, jardins, árvores frutíferas. Aquilo era um sonho, inacessível. Nunca tivemos uma daquelas casinhas. Finalmente moramos em uma, não aumentada, era só um vão, dividido por um guarda roupa, mas tinha uma boa cozinha, banheiro, área de serviço e quintal na frente e atrás. Era alugada, e o dono não podia alugar. A SHIS, empresa pública de residências populares , descobriu e chamou minha mãe, ia passar a casa para ela, que não aceitou, disse que não era certo. Então tivemos que sair daquela casinha, e fomos morar no mítico Colégio do Setor Leste. Minha Harvard. Como? É uma história incrível, Sofia, e vou escrever mais sobre aquela incrível escola pública que marcou minha vida.
Então no discurso de ontem, na colação de grau da Tia Sarah, falaram em universidade pública, em escola pública.
E aquilo me bateu forte , parte de mim estava lá, com a Sarah, com a Keka , com você. Minha mãe, porteira de escola pública, do Colégio do Setor Leste, estava comigo em espírito , e pensei em como aquele trem paulistano nos trouxe tão longe.
Que Deus continue a abrir seus caminhos minha amada filha Sarah.
VALDIR SILVA.