KYOTO (ENSAIO SOBRE A SOLIDÃO)

KYOTO (ENSAIO SOBRE A SOLIDÃO)


A chegada na estação de Kyoto é uma experiência única, que vai habitar suas memórias durante muitos e muitos anos.

A aventura já começa na estação de Tokyo, quando entramos no shinkansen, o trem de alta velocidade que corta o Japão como uma flecha, ou melhor, como um avião deitado sobre trilhos. O painel marcava o horário com precisão de minutos, e exatamente às 14:26 aquele enorme bólido futurista chegou, parecendo um foguete saído de um livro de Isaac Asimov. Entramos e logo achamos nossos assentos, como a classe executiva de nossos sofridos aviões, mais parecidos com ônibus lotados e surrados. Mas era como se fosse uma classe executiva das boas mesmo. Pouco depois aquele colosso zarpou, e só faltou ver as nuvens pelas amplas janelas. Então a tradição japonesa surgiu com o atendente de bordo, que entrava no vagão. Impecável em um terno azul marinho, quepe e luvas brancas. Parou na entrada, curvou-se e fez uma típica reverência nipônica. Circulou pelo ambiente, sorridente, pediu documentos e voltou para a entrada do vagão. Virou-se , fez de novo a reverência e saiu. Nas 3 semanas no Japão tive muitos outros exemplos dessa tradição, e que muitas vezes me emocionaram. Como chegamos a um nível tão absurdo de falta de educação no Brasil? Pensei isso inúmeras vezes também.
A paisagem corria a 300km por hora pelas janelas, o território sendo cortado e conhecido por nós.


Até que Kyoto se aproximou ,veloz.
Ao desembarcar naquela estação de ficção científica, só faltou dar de cara com o Harrison Ford em Blade Runner. Cores , telas , informatização convivendo com a arte , gigantescas escadas rolantes deslizando até os últimos andares daquele prédio.
E lá que ficava o hotel, em um projeto integrado também com um imenso shopping center.
Um quarto de hotel em Kyoto ou em outras cidade do Japão merecem um texto à parte, e prepare-se para ser surpreendido no banheiro.
Ficamos por ali, vendo, por nossa privilegiada visão da janela, os foguetes horizontais chegando na estação. O paraíso dos apreciadores de sushi e sashimi estava a poucos metros , mas não gosto dessas comidas. Passei situações engraçadas por isso , mas consegui me alimentar bem naquelas semanas.
Manhã seguinte, ao sairmos do quarto, a equipe de limpeza estava começando os trabalhos. Uns doze trabalhadores, uniformizados.
Ao nos verem, eles se encostaram de costas na parede e , ao mesmo tempo , curvaram o corpo e fizeram reverência. Agradecemos, impressionados, comovidos.
Havia um restaurante na cobertura do hotel, muito sofisticado , oriental com as possibilidades ocidentais. Magnífico café da manhã em um ambiente futurista.
Janelas panorâmicas voltadas para a cidade , arquitetura arrojada e centenas de pessoas circulando pelas ruas.
Jazz tocando ao fundo.
Então senti uma saudade imensa de minha mãe, que havia falecido um mês atrás. Uma intensa dor no peito, um vazio descomunal. Dois minutos de um sentimento que jamais experimentara. Aquele período no hospital, a doença , a morte dela, minha ida para Manaus, a viagem para o Japão para assistir a Maratona de Tokyo , que iria correr mas que a doença dela impossibitou, tudo aquilo criou uma espécie de anestesia cujo efeito foi aos poucos acabando.
As camadas começaram a se desfazer , e comecei a vivenciar o luto e a me reeguer depois daquele dia.

A sabedoria nipônica, o Monte Fuji, a tragédia de Hiroshima, a cultura pop muito própria deles, o contraste com essa vida aqui dos trópicos, essas coisas todas foram acendendo uma nova chama e renovando a que me mantém.
Algo naquele país produz mudanças e reflexões importantes.
Para mim foi um divisor de águas, um renascer. O sorriso sempre presente daquelas pessoas é um choque com nossa realidade, e como acalenta.
Kyoto ficou para trás, o shinkansen, a tradição, a modernidade, as luzes coloridas e as multidões.
Mas deixei lá um objeto que voltarei um dia para buscar, emocionado e agradecido.


Sol nascente.


VALDIR SILVA

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